West Ryder Pauper Lunatic Asylum - Kasabian

Era 2004 e muitas bandas surgiam no pós-Strokes. Todo mundo acreditava fazer um som de vanguarda porém exibindo nuances de novidade. A maioria dos grupos que surgiu já eram vanguardistas demais com seus experimentos já experimentados e consequentemente não apresentavam nada de novo. A verdade é que tudo já estava enjoativo, aquela sonoridade de garagem, dizer que sua maior influência era o Velvet Underground e etc. Lembro de ter ouvido o Kasabian pela primeira vez nessa época, no jogo de computador FIFA 2004. A música era 'LSF' e aquilo sim chamou minha atenção. Tudo bem que até então eu estava satisfeito ao descobrir algumas bandas mais antigas, estava ainda navegando naquele mar de rosas do underground americano. Mas chamou atenção. As batidas que a banda mandava juntas de elementos eletrônicos deslumbrantes e um vocal arrojado de Tom Meighan era um conjunto de aspectos interessantes. Tudo bem, você poderia até já ter ouvido um som parecido nas décadas passadas, mas entre a nova leva do início do nosso século, aquilo soava prazeroso. A banda criada em Leicester, na Inglaterra, tinha um quê de do som maluco da 'Madchester' e suas bandas como Happy Mondays, Stone Roses entre outros ícones daquele estilo criado no início dos anos 90. Junte aí toda insanidade do Primal Scream e pitadas do rock clássico dos anos 70 e 80. Resulta em uma bela receita apimentada, não? E é assim que o Kasabian pode ser definido.

E por que eu não coloco o álbum de 2004 no blog? Pois bem. Foi lembrando desse álbum antigo e seu som empolgante, que dias desses resolvi relembrar. E depois de algumas audições, matei a saudade. Mas fiquei curioso: "será que eles deixaram a peteca cair?" e lembrei de ter ouvido uma música ou outra nesses TOP SEI LÁ O QUÊ que infestam emissoras de TV e sites da internet. Entre os três álbum lançados após o homônimo de 2004, escolhi ouvir o de
2009, o de nome complicado 'West Ryder Pauper Lunatic Asylum'. Fiquei boquiaberto. A faixa inicial 'Underdog' me trouxe as batidas típicas do primeiro álbum, assinalei isso como uma marca deles, eles não deixaram a peteca cair! Notas rasgadas e distorcidas, ideal para começar um show, atravessaram minha mente. É a herança do rock industrial. Me animei. 'Where Did All the Love Go?' é mais acessível, mais compreensível. A insanidade da um tempo e uma canção bem construída se revela ao ouvinte. 'Fast Fuse' é bombástica, efervescente, fulminante. Você ouve e se imagina em alta velocidade numa Autobahn da vida, sem limite algum. O riff copula com as batidas e cantos extensos e nessa sacanagem musical, vem à luz um hit poderoso. E quando a pausa brusca acontece ao som sensual de uma voz feminina? É uma viagem:

Gold lightning in the skyline
Gold lightning in the sky

Aperte o botão repeat sem medo. Não enjoa. 'Thick as Thieves' é bucólica, embalada em campestres acordes, sim, aquele folk que você já conhece, mas com uma dose de intensidade extra, letra cheia de analogias e o refrão atraente. Mas vou confessar uma coisa: a música que mais ouço é 'Fire', no finalzinho do álbum. Quem gosta de futebol e assiste a Premier League (o campeonato inglês de futebol) vai reconhecer que antes, no intervalo e depois das transmissões oficiais, o instrumental do refrão rola solto. Mas o refrão, a levada no estilo Blur, a típica soturnidade vocal e a carga explosiva pré-refrão, cantarolando FIIIIIIIIIIIRREEEEEEE! Bum! E aí aquelas notas grudentas no estilo 8-Bits dos velhos video-games envolvem tudo. Pra mim é o ponto alto, o auge sonoro do trabalho. E como se trata da penúltima faixa, não tem muito tempo pra qualidade decair.

Bandas novas e bem qualificadas devem ser valorizadas. Velhas influências, som de vanguarda, tudo isso é válido. Mas se você ao mesmo tempo copia seus contemporâneos e cai na mesmice, é como se toda sua memória musical não valesse nada. Agora se você utiliza ótimas influência e usa um pouco da massa cinzenta pra criar uma identidade musical, você chega lá. E o Kasabian chegou lá. Esse é a prova.


Set List


1 – Underdog

2 - Where Did All the Love Go?
3 - Swarfiga       
4 - Fast Fuse
5 - Take Aim
6 - Thick as Thieves
7 - West Ryder Silver Bullet
8 - Vlad the Impaler
9 - Ladies and Gentlemen, Roll the Dice
10 - Secret Alphabets
11 – Fire
12 - Happiness



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 merece e pronto!

Will Damage Your Health - The Cigarettes

Fazia um tempo que eu pensava: "preciso voltar a postar no Rock Town, mas o que?". Ando meio aquém do mundo musical, das novidades que andam surgindo. O pouco que escuto por recomendação de amigos, não me agrada. Será que faleci musicalmente? Parece que ando ouvindo sempre as mesmas coisas. Será que cheguei naquele patamar de tiozão do rock que começa a ficar ranzinza e se fecha para tudo, se debruçando nas velhas bandas que conheço? Será? Não sei, sinceramente não sei.

Mas algo me pegou pelos ouvidos e me jogou no chão. Como se fosse numa catarse profana, me senti frenético, como se estivesse nos meus primeiros anos de rock. A inconsequência, a insanidade juvenil, aquele ar que circula nos pulmões ainda limpos de um moleque que descobre o rock, toda essa sensação de liberdade que impulsionou milhões de jovens desde os anos 50, ah! essa sensação parece ter voltado com tudo. E os responsáveis são o The Cigarettes, um power trio de punk, ou pós-punk, ou seja lá como você quiser classificar. Confesso que havia ouvido pouca coisa, nada de íntimo, lembro de ter sido uma curta audição na casa de algum amigo. Perguntei o nome da banda, fiz a célebre cara de "not bad" e sosseguei meu facho. E nessas tediosas passadas de mouse pelo Facebook, um link sugerido por um amigo mudou minha noite. Ouvi 'I've Forgot My Number (Now I'm Telling You My Name)' e quando senti o compasso acelerado da bateria acompanhado por um baixo cheio de sustância, pensei: "isso sim é som, porra!". Puxei nas minhas mais obscuras memórias algum registro do som, algo era familiar, e sim!, consegui lembrar. Mas era só aquela música! Comecei minha audição repetitiva, exaustiva e delirante. Eles são antigos, são ingleses de 1979 e que lançaram apenas dois álbuns, de forma bem discreta. O trabalho que lhes ofereço é 'Will Damage Your Health', um belo complemento para o nome da banda (fazendo alusão aos males que o cigarro faz a saúde). Eu poderia aqui tentar expressar a vitalidade do som com adjetivos dos mais complicados, mas me reservo a simplificar: parece uma bomba explosiva composta de genialidade do The Jam, a agressividade dos Buzzcocks e a sonoridade ludibriante do Gang of Four. A pergunta que ficou reverberando em minha mente (e que com certeza passeará pela sua também) é: como diabos essa banda não é conhecida? Como as pessoas não têm informações mais detalhadas? Como esse som não toca nas casas que frequentamos? Se você ouve 'Can't Sleep at Night' e percebe a complexidade do som, com interposições de vozes, variações de intensidade (voando com um punk cheio de melodia e pousando numa pista de acordes típicos do ska) e todo o conjunto da composição, com certeza fica boquiaberto com o fato de nunca ter ouvido isso antes. Pulando várias músicas desse álbum e chegando em 'Surrender', você vai ouvir canção fácil, refrão grudento, toque de guitarra freestyle, sem frescura e vocal tipicamente inglês. 'Screaming Dreaming' é sofisticada, soturna, e como sempre amparada por acordes pesados de baixo. Ainda conta com um final de pausa no vocal e um instrumental diversificado, bem executado - enfim - magnético (ou melhor, hipnotizante). Um deleite para quem busca sempre apreciar um bom rock, como feito antigamente.

Vai por mim, é som poderoso, que vai te jogar lá para os primórdios de suas descobertas. Prepare-se para se renovar com algo velho que soa extremamente novo. Se não fossem caras como eles, o que é ruim hoje seria ainda pior. Pode ter certeza.



Post dedicado ao Evandro Vacco

Set List



1 - They're Back Again, Here They Come                            
2 - I've Forgot My Number (Now I'm Telling You My Name)                      
3 - All We Want Is Your Money                
4 - Can't Sleep at Night                
5 - It's The Only Way to Live (Die)                           
6 - Stay Inside                  
7 - Looking at You                          
8 - Frivolous Diguises                    
9 - Run                
10 - After All                     
11 - Don't                           
12 - Screaming Dreaming                           
13 - Valium World                          
14 - You Were So Young                             
15 - Damage Your Heath                             
16 - Miranda                     
17 - Media Mania                           
18 - Surrender                 
19 - Can't Sleep at Night                             
20 - Frivolous Disguises               
21 - It's the Only Way to Live (Die)                         
22 - Valium World

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merece e pronto!

Sha Sha - Ben Kweller

Muitos de nós crescemos ouvindo boa música em nossos lares. Geralmente é um pai doidão com seus discos dos Beatles ou Doors (no meu caso, meu pai não era doidão mas me apresentou o Queen) ou aquele tio drogado gente boa que vive falando das viagens de drogas pelas quais passou lá pelos anos 60. Claro que muitos outros cresceram com influências de pais que são realmente músicos e entendem perfeitamente do que estão passando aos filhos. E foi assim que Ben Kweller - nascido em São Francisco, no ano de 1981 - passou sua infância. Seu pai, Howard Keller o ensinou a tocar bateria e guitarra e quando o pequeno Ben tinha seus oito anos, já fazia duetos com o pai, que tocava a guitarra e cantava, com o acompanhamento de seu filho na bateria. Isso sempre acontecia antes de Howard ir para o trabalho. Aos nove anos, Ben Kweller já contava com várias composições próprias, vencendo um concurso de compositores da Billboard. Ele também teve a honra de ser vizinho do excelente Nils Lofgren, que além de uma brilhante carreira solo, faz parte da E Street Band, banda que acompanha Bruce Springsteen. Esse fato ajudou muito Kweller a definir suas bases musicais e foi essencial em sua jornada, seja como integrante de banda ou em sua carreira solo. E falando em banda, Kweller apareceu para o mundo com Radish. O hit 'Little Pink Stars' (veja o vídeo aqui) fez a banda excursionar pelos EUA e Europa. Graças a fusão da Polygram com a Universal, um de seus álbuns não pôde ser lançado, o que os fez assinar contrato com a Mercury. Em 1999, Kweller resolveu iniciar sua carreira solo em Nova York. E foi aí que sua carreira alavancou, exibindo sua genialidade e vocação para gloriosas composições. Com seu primeiro álbum, lançado em 2000, com apenas dezenove anos, Kweller já era comparado a nomes como Elliot Smith e Beck, e realmente ele estava nesse nível.

Dois anos depois, em 2002, Kweller lançou sua obra-prima: 'Sha Sha'. Ele tinha a explosão de um grunge bagunçado e a classe de um 'piano man', sempre transportando lindas notas do instrumento junto a composições magníficas. 'Wasted & Ready' é a segunda faixa, e já encara o ouvinte entregando uma canção repleta de notas viscerais de guitarra e alternância de instensidade. Versos cantados como balada, refrão rasgado dentro da estética do bom e velho rock. Posso falar com toda segurança que 90% dos ouvintes vão elegê-la como a melhor do álbum. Em seguida, 'Family Tree' é deliciosa em sua levada country, começando com uma série de 'bop bops' e sustentando arranjos serenos. Não posso deixar de citar que a voz de Kweller pode agir como um bom tranquilizante em algumas ocasiões. 'Commerce, TX' retoma a intensidade das guitarras e entre 'uuuhhhuuuus', desenvolve uma harmonia fácil e sem frescuras. Com uma introdução intimista (atmosfera que permeia toda a faixa), 'In Other Words' é o toque de requinte que todo bom álbum precisa. Nessa canção, com voz mais amena, Kweller presenteia o ouvinte com a melhor síntese de sua veia compositora. Tudo se desenrola naturalmente, quando uma pausa quebra o ritmo e num crescente de notas de piano e consequente invasão de batidas bem distribuidas, a canção recupera seu vigor e oferece um instrumental de qualidade. Deslumbrante.

Quando o Radish apareceu na mídia, todos procuravam por um novo Silverchair, mas poucos desconfiavam que daquela banda, sairia um garoto-prodígio cheio de coisa boa pra oferecer. Ele era apenas um garoto de vinte e um anos quando compôs e executou esse álbum. E continuou com a qualidade de suas composições, mantendo uma discografia invejável. Enfim, esse é Ben Kweller, pessoal. É um prazer conhecê-lo.

Set List

1 - How It Should Be (Sha Sha)
2 - Wasted and Ready
3 - Family Tree
4 - Commerce, TX
5 - In Other Words
6 - Walk on Me
7 - Make It Up
8 - No Reason
9 – Lizzy
10 - Harriet's Got a Song
11 - Falling

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RockTown! Covers: Vol. 1 - Diversos

Após postar o álbum do CAKE na semana passada, e dando ênfase ao comentário sobre o cover que a banda fez do hino gay da música 'I Will Survive' (da Gloria Gaynor), pensei em fazer compilações com alguns dos melhores covers já feitos na música. Não pensem que omiti ou esqueci alguns desses covers. Coloquei quinze faixas nesse primeiro volume, com um pouco mais de uma hora de música, na intenção de caber em um CD (caso o leitor queira gravar a coletânea). Enfim, como sempre, estou aberto à sugestões para o volume dois. Será muito bom trabalhar junto com os leitores nas próximas compilações, pois embora eu escolha os álbuns e escreva as resenhas, aprendi muita coisa com as sugestões e dicas de vocês. Já aproveito pra agradecer pelas visitas, downloads e comentários no último post!

With A Little Help From My Friends (Joe Cocker)
Comecei a compilação com o cover feito por Joe Cocker da segunda faixa do emblemático álbum dos Beatles 'Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band'. A verdade é que eu muita gente nem imaginava que essa música de Joe Cocker na verdade é uma versão maravilhosamente reformulada de "With a Little Help from my Friends" do quarteto britânico. Essa descoberta é semelhante ao momento em que você descobriu que a vovó Mafalda era um homem. Simplesmente chocante. Você deve lembrar dessa canção na abertura do seriado 'Anos Incríveis' que passava na TV Cultura, lembra? (veja o vídeo).

(I Can't Get No) Satisfaction (DEVO)
A segunda escolha também é uma concepção extremamente diferente e ao mesmo tempo fiel da versão original da célebre '(I Can't Get No) Satisfaction' dos Rolling Stones. Se os Stones contavam com o riff mágico de Keith Richards (e até então parecia intocável pela perfeição harmônica de um verdadeiro hit explosivo), o DEVO quebrou o tempo das batidas, acrescentou pitadas de bom humor e fez um cover muito interessante.

Everybody Wants To Rule The World (Patti Smith)
Esse hit do Tears for Fears pode ser considerado uma das maravilhas do pop do século passado. E quem poderia aguentar a responsabilidade de prestigiar a dupla inglesa com uma nova estética para uma música tão consagrada? Patti Smith é esse alguém. Ela foi um dos ícones da geração punk dos anos 70, sossegou o facho nas décadas posteriores, mas sua voz adquiriu uma classe incomparável e preservou o timbre irreverente de sua juventude. É relaxante ouvir 'Everybody Wants to Rule the World' dentro da visão dela. Os arranjos, mais acústicos e adocicados trazem uma grata surpresa. Você pode baixar o álbum de cover de Patti Smith aqui no RockTown! Downloads (clique aqui).

Hurt (Johnny Cash)
Johnny Cash
é um monstro sagrado do rock, do country, do folk... da música. Estamos acosutmados a ouvir covers de diversos artistas em cima de canções dele. Mas existe um homem, dotado de grande genialidade, porta-voz quase exclusivo do rock industrial. Sim, estamos falando do homem-banda Trent Reznor, do Nine Inch Nails. Ele compôs, dentro da atmosfera sombria do mesmo rock industrial, a bela canção 'Hurt'. Em 2002, Reznor soube da intenção de Cash em regravar sua canção. Ficou extremamente lisonjeado, mas o próprio Reznor diz que ao ouvir o cover, sentiu como se tivessem beijado a namorada dele, sentiu-se invadido. Como se aquela música nunca tivesse sido dele. E Johnny Cash realmente roubou aquela obra. A voz envelhecida porém imponente do ícone do rock preencheu cada espaço. A tristeza que tomou os fãs de Cash pode ser bem explicada: ele usou a canção como se fosse seu último testamento. Johnny Cash faleceu no ano seguinte. O clipe é realmente comovente e pode ser conferido aqui. Se você entende a importância e as lutas de Cash, provavelmente já chorou vendo esse vídeo. Enfim, é dramaticamente magnífico.

War Pigs (The Flaming Lips)
Falar do Flaming Lips é falar em loucuras, psicodelia desenfreada, muito humor e bizarrices. Embora todas essas alcunhas pertençam a eles, você vai perceber uma autoridade raramente vista na reprodução de uma versão alternativa de um som de sucesso. A primeira vez que ouvi essa versão cover de 'War Pigs', foi no Claro que é Rock de 2005, quando a banda pegou todos de surpresa com toda a energia da canção do Black Sabbath. Eu fiquei atônito enquantoa maioria urrava de empolgação. Foi sensacional. E após muitas audições durantes os anos seguintes, constatei que se o Black Sabbath tivesse nascido nos anos 2000, soaria exatamente como a versão do Flaming Lips sugere. Toques eletro-psicodélicos, guitarras ainda mais potentes e aquele ódio no cantar. Essa versão é imperdível!

Superstar (Sonic Youth)
Todo mundo falava do filme Juno. Sim, eu assisti e gostei muito. Mas o que me chamou a atenção em toda a trama foi quando o personagem Mark (interpretado por Jason Bateman) que era um produtor de jingles e uma espécie de ex-grunge rico, ao conversar sobre música com a adorável Juno (interpretada por Ellen Page) apresenta um cover até então desconhecido por mim do Sonic Youth, da música 'Superstar' daquela banda brega antiga Carpenters. Um sorriso escapou da minha boca e viajei no pequeno trecho que foi exibido no filme. A voz de Thurston Moore se derrama em cada palavra, quase um sussurro preguiçoso. É delicioso ouvir toda a distorção típica da banda nova-iorquina abalando o refrão desse clássico do pop mundial. Surpreendente.

Wish You Were Here (Radiohead)
O Pink Floyd é uma das bandas mais intrigantes da história. Teve seu momento de psicodelia com Syd Barret, passou por uma transição para o progressivo, e em todos os momentos, até 1973, foi atrelado ao space-rock, com toda razão. Em 1975 a banda lançou o incrível álbum 'Wish You Were Here' que contém a música que dá título ao disco. É uma verdadeira balada romântica, que foge completamente de tudo o que os fãs já ouviram. É delicada, e a voz de David Gilmour é oportuna em expressar toda a emoção que a distância propicia. Ponto. De repente nos deparamos com uma versão levemente parecida com a original, mas cantada com timbre arrastado, manhoso e displicente. Sim, é Thom Yorke e o Radiohead dando seu toque ao clássico floydiano. Os arranjos são lentos e quase te fazem meditar. É uma estranha ótima concepção de uma das bandas mais geniais da atualidade.

Getting Better (Smash Mouth)
Sim, é mais um cover dos Beatles. Me chamem de tiete beatlemaníaco, mas os fab-four têm tantos clássicos impressos em nossas mentes, que covers bem feitos desses clássicos merecem destaque, talvez porque tenhamos ouvido tanto o quarteto de Liverpool, que qualquer coisa diferente nos impressione. Mas o Smash Mouth realmente se superou. Todo mundo já ouviu o cover deles do 'I'm a Believer' dos Monkees, no filme Shrek. E por estar manjado demais, preferi relacionar essa versão de 'Getting Better' (também do Sgt. Peppers). Ela é tão cheia de energia quanto à original, mas a voz rouca de Steve Harvell traz uma ótima impressão para essa calorosa canção. Alguns efeitos introduzidos nos arranjos também chamam a atenção. Simplesmente divertida.

Mandy (Drop Nineteens)
'Mandy'
. Muita gente (provavelmente você se inclui) já ouviu essa canção e nem imagina quem canta.  Um cara que é identico parece a Glória Menezes e é um ícone da breguice da música americana, trocou o nome dessa música de Brandy para Mandy e a transformou num hit mundial. O nome dele é Barry Manilow e em 1974 estourou nas paradas de sucesso com essa canção. Até hoje você pode ouví-la nas programações das rádios de flashbacks e cá entre nós, a música tem um apelo pop sensacional. E se você surrupiar toda a característica acessível de uma música pop e aplicar aquelas distorções rasgadas do shoegaze, vai encontrar algo extremamente curioso. A forma como a canção é cantada, com todas as paredes de guitarra dão a impressão de andar num túnel escuro, avistando apenas uma luz fraca no fim. A anti-estética dessa versão realmente é a grande atração da faixa. Um sucesso.

I'm Only Sleeping (The Vines)
Em 1966, no disco Revolver, os Beatles experimentaram algo impensável pra época: colocar acordes de guitarra para serem executados ao contrário. Sim, foi na sonolenta (num bom sentido) canção 'I'm Only Sleeping' que esse efeito foi bem introduzido. A letra é uma ode à preguiça, ao sono e à displicência com a vida, com a voz intencionalmente desleixada de John Lennon. E embora os Vines não tenham preservado esse 'cansaço' no cantar, a versão é límpida e sincera. Uma ótima ótica desse clássico.

Heroes (TV on the Radio)
'Heroes'
de David Bowie é a canção certa para ser reproduzida peloas americanos do Tv on the Radio. Podemos captar a influência de Bowie na banda americana, e nada melhor que uma homenagem envolta em elementos eletrônicos, batidas rápidas e a manutenção da atmosfera original da canção. David Bowie poderia ter feito essa música exatamente dessa forma. E isso é o que mais encanta nessa versão: a forma como eles se equipararam ao original, e ainda assim, soando inovadores.

Rocket Man (Me First and the Gimme Gimmes)
Esse hit espacial do inglês Elton John, ícone do pop/rock nos anos 60 e 70, é reflexivo, é brilhante, seja com a letra que expoe o drama de um astronauta (o rocket man) relatando suas impressões do espaço, sua saudade da Terra, enfim, tudo o que engloba a saída do planeta natal e a exploração do infinito, seja com a harmonia perfeita do piano que é explendido quando tocado por Elton John. O Me First and the Gimme Gimmes é uma banda lotada de sátiras musicais, lançando álbuns de covers incríveis. Músicas que você jamais imaginaria na roupagem do rock, são perfeitamente convertidas por essa banda. E eles fizeram um ótimo trabalho arremessando 'Rocket Man' para o punk rock e rompendo qualquer barreira que impedia esse feito.

Valerie (Amy Winehouse)
Talvez você pense que 'Valerie' é uma música originalmente da Amy Winehouse. Se você pensa isso, está errado. Os Zutons lançaram essa canção no álbum 'Tired of Hangin' Around' (disponível no RockTown! Downloads aqui). A versão que conta com arranjos mais contagiantes na versão original, foi genialmente transportada para o clima soturno do blues, sempre lembrando que as pitadas de R&B dão o ritmo ideal para fazer as canções de Winehouse serem o que são: incomparáveis. E a cantora polêmica faz de 'Valerie' uma agradável homenagem a uma banda tão nova e tão promissora.

Sitting on the Dock of the Bay (Pearl Jam)
Foi há dois dias atrás que me atentei para Sitting on the Dock of the Bay, através de uma recomendação de um amigo, num jantar que contava com cervejas e muitas risadas. Eu conhecia a versão de Otis Redding, mas não sabia que o Pearl Jam havia feito uma versão tão consistente e contagiante. As batidas típicas do soul e a voz magnífica de Redding foram perfeitamente substituídas peloss acordes de guitarra estonteantes, um baixo pegajoso, a voz peculiar de Eddie Vedder e batidas mais explosivas que o rock oferece. Foi uma descoberta (pra mim) das melhores, confesso. Só não tem os assovios de Redding no final, mas tá valendo.

It's Not Unusual (The Wedding Present)
Você deve lembrar do seriado "Um Maluco no Pedaço", onde Will Smith era o protagonista (passa até hoje no SBT). Se lembra, com certeza lembra do primo playboy dele, o Carlton Banks. E se lembra do Carlton, com certeza lembrará da dança dele. É hilário. E ele sempre desempenhava sua dança bizarra ao som de seu ídolo, Tom Jones, mais específicamente com a música 'Is Not Unusual' (veja essa dança aqui). E se você prestar atenção nessa canção, poderá notar que há uma pompa instrumental, o esforço vocal de Tom Jones ao cantar que "não é incomum ser amado por alguém". Todos os metais soprando e a batida contagiante fazem dessa canção algo curiosamente inesquecível. E de repente o Wedding Present resolve fazer o cover. O que poderia acontecer? Arranjos rápidos com batidas tribais, voz abafada e cuspida e toda a aparência do velho punk convertem aquela música ao estilo Las Vegas em algo extremamente Nova York, bem no meio de 1977.

Como disse no começo, muitos covers podem parecer esquecidos (eu mesmo disse várias vezes que poderia ter colocado um outro cover aqui e acolá), mas na verdade, foram guardados para o segundo volume. Afinal, tem muito cover bom e que vale a pena ser apresentado aos leitores. Espero sugestões!

Post dedicado ao Edu.

Set List

1- With A Little Help From My Friends (Joe Cocker)
2- (I Can't Get No) Satisfaction (DEVO)
3- Everybody Wants To Rule The World (Patti Smith)
4- Hurt (Johnny Cash)
5- War Pigs (The Flaming Lips)
6- Superstar (Sonic Youth)
7- Wish You Were Here (Radiohead)
8- Getting Better (Smash Mouth)
9- Mandy (Drop Nineteens)
10- I'm Only Sleeping (The Vines)
11- Heroes (TV on the Radio)
12- Rocket Man (Me First and the Gimme Gimmes)
13- Valerie (Amy Winehouse)
14- Sitting on the Dock of the Bay (Pearl Jam)
15- It's Not Unusual (The Wedding Present)

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Fashion Nugget - CAKE

Aqui no Brasil, você deve ter ouvido algum som dessa banda em meados de 1999, quando as rádios e a MTV tocavam exaustivamente o hit 'Never There'. Verdade seja dita, essa música realmente é um grude na mente, evidenciando a vocação pop do CAKE. Essa banda formada em 1992 na cidade do Sacramento - que fica na ensolarada e meio-mexicana Califórnia - é uma mistura agradável do que há de mais fino em ritmo. Você pode sentir influências escancaradas do hip-hop negro das ruas, o bom e velho funk oriundo de James Brown e aquela turma da Motown e até o swing jazz que explodia nos salões dos EUA nos anos 30. E para incrementar a deliciosa receita, acrescente pitadas daquele country sulista entupido de sotaque carregado e boas levadas de banjos e violões. Não é perda de tempo aguardar por um bom trecho de trompete, aparecendo aqui e acolá, dando ao som da banda um envolvente toque latino. E se a bagunça já não bastasse, você ainda vai achar estranho que mesmo contando com uma mistureba atípica como essa, o CAKE pode ser considerado um grupo de rock, apresentando atmosfera bem densa de guitarras distorcidas, baixo estritamente cativante sempre bem acompanhado por batidas de uma bateria precisa.

Quando o assunto é melhor álbum da banda, o Fashion Nugget é quase unanimidade entre os críticos. Lançado em 1996, ele apresenta uma síntese da essência do CAKE. 'Frank Sinatra', a faixa que abre a obra é uma bela composição do vocalista John McCrea, ostentando uma estética sombria, lembrando um pouco Tom Waits, com as passagens charmosas e maliciosas de trompete de Vince DiFiori. McCrea tem ótimas sacadas ao compor \a maioria das letras da banda. Sempre utilizando de humor ou sarcasmo, é divertido atentar para alguns trechos malucos, como nessa canção:

While Frank Sinatra sings "Stormy Weather" (enquanto Frank Sinatra canta "Stormy Weather")
the flies and spiders get along together, (as moscas e aranhas dão as mãos)
cobwebs fall on an old skipping record (teias de aranha caem sobre um risco no vinil)


'The Distance' é a mais celebrada das faixas do álbum. Já ouvi e li muitos comentários de guitarristas que diziam ter perdido o tesão pela guitarra depois de ouvir a linha de baixo dessa música. E realmente é impressionanete. Os acordes de baixo pegam todos os elementos musicais e os tomam como reféns. Não tem papo, o fundo que o instrumento propicia à música é realmente de deixar qualquer um de boca aberta. Mas não não se preocupe, tudo funciona na melodia. O trompete, o coro de vozes no refrão, a agonia moderada na voz de McCrea... Se você fechar os olhos e se entregar à toda miscelânia, vai se flagrar mexendo a cabeça com um leve sorriso no rosto. E o álbum vai segurando bem a pegada até o momento em que o ouvinte é pego de surpresa por um cover, que eu considero o melhor já feito no rock. Sabe aquele hino gay cantado pela Gloria Gaynor? Sim, estou falando do 'I Will Survive'. E se você acha a versão original muito 'alegre' e tolerável apenas em festas de casamento - quando todos estão bêbados e soltam a franga -, você vai derreter ao ouvir os primeiros acordes de guitarra anunciando uma versão cheia de classe, com toque requintado de blues e claro, com dedilhadas aguçadas do baixo de Victor Damiani. De repente o CAKE conseguiu colocar toda sua personalidade numa música já consagrada pelo sucesso. Os heterossexuais podem até cantar os versos dessa canção - que é um grito de superação após o fim de um relacionamento - sem se ver enrolado numa bandeira colorida, desabafando para o mundo que irá sobreviver. 'Perhaps, Perhaps, Perhaps' é uma versão deliciosa de 'Quizá, Quizá, Quizá' de Osvaldo Farrés (não me perguntem quem é esse cara!).

Escrever sobre o Fashion Nugget é passar pela tentação de comentar todas as músicas, pois realmente o álbum tem uma nível altíssimo. É o tipo de disco que você ouve por meses a fio e do nada, para. Meses depois você pensa: "vou ouvir esse som" e toda a musicalidade da banda vai ao encontro de seu estado de espírito, fazendo você ouvi-lo por mais uns meses. Aqui você encontra a definição musical que McCrea um dia deu para a banda: "Não fazemos parte de nenhum movimento. Somos outsiders".

Set List

1 - Frank Sinatra
2 - The Distance
3 - Friend Is a Four Letter Word
4 - Open Book
5 - Daria
6 - Race Car Ya-Yas
7 - I Will Survive
8 - Stickshifts and Safetybelts
9 - Perhaps, Perhaps, Perhaps
10 - It's Coming Down
11 - Nugget
12 - She'll Come Back to Me
13 - Italian Leather Sofa
14 - Sad Songs and Waltzes

Post dedicado a Mari Nazima, Wagner 'Doido' Uchida e todos que pediram pela volta do blog.


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Aos Meus Leitores

Não vou culpar a minha rotina, até porque tenho sido agraciado com um bom tempo disponível para mexer na internet, ouvir novos sons e tudo mais. Meu trabalho está tranquilo, o namoro vai bem, obrigado.

"Então por que diabos o Pipoko não posta mais nada aqui no RockTown?"

Na verdade - e quem escreve sabe muito bem - um escritor (mesmo sendo um de meia-pataca como eu) vive de fases. E hoje em dia estou extremamente focado em escrever no meu outro blog (www.vivanegativo.blogspot.com). É um blog de contos, vale a pena até conferir, mas voltemos ao foco desse parágrafo. Não prometo o ritmo de 2007 ou 2008, mas prometo tentar largar por alguns dias os personagens fictícios de minha prosa e me dedicar um pouco mais aos personagens reais de nossa história musical.

Fico extremamente lisonjeado com muitos comentários que verifico na caixa de emails. É muito gratificante saber que um trabalho de quase quatro anos, continua sendo reconhecido diariamente. Por isso, continuem com seus emails e comentários. Sempre será um prazer atendê-los de uma forma ou outra. É muito bom ter tantos leitores de bom-gosto e extrema simpatia. Gente que é atraída pelos downloads e acaba ficando pelas resenhas. Sou eternamente grato por suas visitas, comentários e claro, pelas novas amizades que tenho experimentado.

Vocês são sensacionais!

p.s.: pode ser atrasado, mas é de coração: FELIZ ANO NOVO!