Pacific Ocean Blue - Dennis Wilson

Mas quem diabos é Dennis Wilson?, você deve estar a se perguntar. Se você pensar um pouco, cavar em seus registros de memória (dos mais distantes aos mais recentes) vai lembrar de um certo gênio musical chamado Brian Wilson, dos Beach Boys. Do mesmo sangue onde corria a sensibilidade pop de Brian, nasceu Dennis o baterista dos Beach Boys. Dennis era considerado o menos talentoso dos três irmãos (Brian, Dennis e Carl) até porque não se envolvia tanto no processo criativo dos álbuns da banda - embora Brian tenha tomado para si essa função criativa em meio a sua loucura movida pela ambição de superar os Beatles. E numa banda que evocava a praia e o surfe como seus principais trunfos musicais, Dennis era o único surfista de verdade. Rebelde, sempre em conflito com seu pai, o beach boy veio a falecer no ano de 1983, afogado enquanto mergulhava em volta de seu barco em Marina del Rey, na Califórnia.

Em meio ao vendaval de mudanças pelo qual os Beach Boys passavam nos anos 60, Dennis resolveu compor algumas canções. Algumas com e 'Little Bird' e 'Be Still' entraram para o álbum Friends, passando pelo mesmo que George Harrison passou nos Beatles, quando ele revelou sua perícia na composição de músicas incríveis. Nos anos 70 as músicas de Dennis sempre marcavam presença nos álbuns o que o levou a gravar no início da mesma década um single chamado 'Dragon'. E foi em 1975 que Dennis iniciou a criação de Pacific Ocean Blue. O seu único trabalho solo foi aclamado pela crítica e muito comemorado por seu irmão Brian. E pra ser sincero, cada palavra positiva seja em comemorações, seja em aclamações foram merecidas. Se Brian era o gênio do pop, disputando de igual pra igual com Lennon e Mccartney, seu irmão captou as lições e sem nenhum traço de loucura, fez um dos melhores álbuns do pop dos anos 70. A audição dele é surpreendente para um navegante de primeira viagem, até porque a qualidade da produção e a sofisticação dos arranjos fazem o ouvinte deduzir que se trata de um trabalho atual. Os recursos de sintetizadores, o balanço das canções que se valiam do suingue do soul, funk e do R&B, a elegância das notas de piano que adornam diversas das canções e as letras intimistas e universais, enfim, tudo nessas doze faixas atraem até o mais rude dos seres.

'River Song' é delicada porém majestosa. Apresenta uma linha de baixo tímida mas suficiente para não deixar a harmonia rastejar em sujeira. A onda de vocais num estilo gospel, sejam corais, sejam backing vocals, apenas elevam a imponência da canção enquanto Dennis repete infidavelmente a frase 'Rollin' rollin' rollin' on river'. O trabalho de inserções vocais é poderoso e com certeza poderia figurar entre as canções do Pet Sounds, ou do Today!. Acredite, não é exagero algum o que estou escrevendo. 'What's Wrong' empresta um pouco do balanço do rock dos anos 50, salpicada de ardentes notas de piano. 'Moonshine' é uma obra adiantada, à frente de seu tempo. O que as bandas começariam a fazer na metade dos anos 80, Dennis já experimentava nessa faixa. A regularidade de sua voz, sempre tristonha, sempre sóbria é um encanto à mais. 'Dreamer' é a materialização da liberdade de criação do ex-baterista dos Beach Boys. Uma forte influência de funk, com trompete para temperar a versatilidade do músico. 'Thoughts of You' é triste, dolorosa e conformada. É a saudade que bate no homem e que o faz abaixar a cabeça e aceitar as coisas como são. É encarar o fato de que até o amor morre um dia:

All things that live, one day must die, you know
Even love and the things we hold close
Look at love, look at love, look at love
Look what we've done
A voz de Dennis é sonolenta, como se estivesse balbuciando palavras ao telefone, ainda deitado em sua cama, num quarto perto do mar. O piano acompanha o desenrolar da canção com beleza indescritível. Os arranjos tomam proporções caóticas e tensas quando ele canta a estrofe acima descrita. É arrepiante. 'Time' é soturna, uma espécie de adaptação, do "filho pródigo" para "marido pródigo". E quando a calma é aterradora, o funk de novo quebra o pau e instala uma atmosfera dançante, exibindo claramente o porquê do sobrenome Wilson.

Eu costumo fazer uma descrição rápida do Pacific Ocean Blue para quem não o conhece: é uma espécie de Beach Boys mais sofisticado. Seria como a banda liderada por Brian soaria hoje em dia. A morte de Dennis foi uma perda inestimável para a música. Mas seu legado para a humanidade é tão grande quanto a falta que ele faz. A única coisa que não é nova nesse álbum é o fato de que a música sempre vence a morte.

Set List

1- River Song
2- What's Wrong
3- Moonshine
4- Friday Night
5- Dreamer
6- Thoughts of You
7- Time
8- You and I
9- Pacific Ocean Blues
10- Farewell My Friend
11- Rainbows
12- End of the Show


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Abbey Road - Beatles

Eu realmente não sei o que é mais difícil: voltar ao blog depois de tanto tempo ou escrever sobre os Beatles. Mas era preciso retornar com algo de peso. Nada mais pesado, nada mais relevante que a cultuada banda de Liverpool. Ainda se considerarmos que o único álbum dos Beatles presente no Rock Town! Downloads é um álbum 'não-oficial', lançado recentemente e com músicas alteradas.

A situação em 1969 - quando o álbum Abbey Road foi lançado - não era das melhores. John Lennon já havia conhecido a Yoko, o Ringo Starr já havia passado por diversas crises de complexo de inferioridade, George Harrison queria mais espaço para suas composições e Paul Mccartney aumentava cada vez mais sua influência com a ausência cada vez mais frequente de John. Os conflitos de cunho artístico e até ideológico permeavam a atmosfera dos fab-four e a banda caminhava para o fim. Mas pelo menos no caso dos Beatles, não havia como constatar algo, não havia como adivinhar o fim da história.

Os Beatles começaram em 1962, tocando em Liverpool. Um misto de composições próprias e covers dos rocks da época. Em questão de quatro anos eram a banda mais influente da história do rock. Em menos de dez anos eles mudaram de som, de visão sobre o mundo e até de visual por diversas vezes. Dos iê-iê-iês para a psicodelia mais lisérgica possível. Da ânsia em pegar na mão de uma garota adolescente até a preocupação com revoluções prontas para estourar pelo mundo nos fim dos anos 60. Dos cabelinhos tigelinha até o visual mais pesado, com longas barbas e cabelos. Um dia pensei até na teoria da banda ser extra-terrestre. Em mais ou menos oito anos, eles resumiram o caminho que uma banda deveria seguir, passaram por modificações aceleradas e sem exagero algum, conseguiram compactar toda a história do pop e do rock no pequeno período que estiveram na ativa. Com a rica discografia deles, você poderia se isolar numa ilha por muito tempo sem se preocupar com o que iria ouvir. Toda audição do som deles é uma novidade. Você nota detalhes mínimos em cada música, você avalia a performance do Paul no baixo, constata que o Ringo não era tão ruim assim, franze a testa com a mão no queixo e pensa que o Harrison era um ótimo compositor e fica prestando atenção no tom anasalado da voz do John.

O Abbey Road foi o penúltimo álbum lançado pelos Beatles, porém foi o último a ser gravado. Já era o registro de uma banda extremamente evoluída, mas não passava de uma compilação de fragmentos de uma ruína. Claro que se você entrar na atmosfera diversificada do álbum, nem vai perceber que havia uma série de discussões e conflitos.

Como se atentar para faíscas quando o álbum se inicia com a sexualmente flamejante 'Come Together'? O compasso perturbador alternado com ataques constantes de guitarra se debruçam no peso do baixo de Mccartney. A harmonia tem suas pausas estratégicas e ainda apresenta um solo simples, algo perfeitamente inserido. 'Something' é a música definitiva sobre o amor, sobre a admiração direcionada a quem se ama. George Harrison exibe nessa faixa o motivo pelo qual ele deveriar figurar entre os compositores da banda. A música se desenrola de uma forma tão bela, uma cadência decrescente na retomadas de harmonia, tudo, absolutamente tudo nessa canção emociona. 'Maxwell Silver Hammer' evoca uma estrutura muito semelhante à da canção do Sgt. Pepper's "When I'm Sixty-Four" com aquela levada típica de cabaré. A música conta uma história estranha de um cara chamado Maxwell e seu martelo prateado, com direito a mortes por martelada, julgamento e tudo mais. O trabalho com as cordas de guitarra conseguem ser ofuscados pela linha de piano que repousa suavemente sobre a harmonia. O rock gritado de 'Oh! Darling' é uma incrível interpretação do sentimento de desespero/humilhação feita por Paul. 'I Want You (She's so Heavy)' é a mais imponente música feita pelos Beatles. Com arranjos perfeitamente encaixados, uma bateria influenciada pelo jazz e o complemento entre dedilhadas minusciosas de baixo com acordes macios da guitarra, essa faixa é uma longa alternância entre um estilo mais descontraído e toneladas de notas alongadas e pesadas. E quando as nuvens estão caindo sobre o ouvinte, quando os intrumentos se aglomeram numa intensidade indescritível, o céu se abre e o sol aparece com a singela 'Here Comes the Sun'. Uma obra genial de Harrison que se torna ainda mais importante quando cantada por Lennon. Se você fechar os olhos e perceber a levada de violão ao fundo com as palmas, vai evidenciar a destreza de George Martin ao produzir o álbum. E a introdução do sintetizador Moog ficou perfeita, mesmo levando em consideração que eles estavam há pelo menos uma década antes da popularização dos sintetizadores no rock. 'Because' tem uma das mais belas construções harmônicas do rock, utilizando apenas dedilhadas sonolentas de guitarra e pequenos toques de baixo. O canto realmente é a atração da faixa. E quando tudo está maravilhoso, ainda melhora com a habilidade de Paul ao piano abrindo 'You Never Give me your Money'. Tristonha mas versátil, a canção explode num ritmo à la ragtime e o vocal passa de John para Paul mas isso é a última coisa que se percebe em meio a cantos influenciados pelo gospel e por uma repentina subida da guitarra que assume a frente e proporciona uma perfeita mudança de arranjo, com todos cantando:

"One two three four five six seven
All good children go to Heaven"
Diabos, vou pular algumas faixas, se não escrevo sobre todo o álbum. 'She Came In Through The Bathroom' utiliza recursos de R&B para levar o ouvinte a balançar a cabeça, os ombros num ritmo envolvente. E quando tudo fica em silêncio, a arrepiante 'Golden Slumbers' resplandece com um canto sóbrio de Paul que emociona quando se exalta e rasga o vocal no trecho 'Golden Slumbers fill your eyes/Smiles await you when you rise'. Tudo continua magnificamente triste até 'Carry That Weight' entrar no embalo da bateria e anunciar continuidade à nona faixa 'You Never Give me your Money'. E continuando naquele embalo, a profética 'The End' funciona como aquela apresentação dos membros da banda num show. Na bateria... Ringo Starr! E vem um solo de batera só pra exaltar os fã em euforia. E é isso que acontece: Ringo arregaça a boca do balão num solo tribal e mostra que não era o membro medíocre da banda (cabe citar que a faixa Octopus's Garden é de sua autoria). As guitarras são apresentadas com Lennon e Harrison se alternando em epopéias dignas de solos progressivos. Paul complementa com acordes profundos de baixo e repetidas notas de piano, só pra dar uma refinada na coisa.

Abbey Road é o álbum mais bem produzido da banda (talvez Sgt. Pepper's possa até rivalizar), e o grande trunfo do quarteto. Muita gente esquece desse álbum ao colocá-lo entre os melhores do rock, seja porque o fim já estava próximo, seja pela desunião do grupo. Mas eu tenho um jargão particular: "e isso, só os Beatles". Abbey Road é um registro coeso de uma banda em frangalhos. E isso, só os Beatles.

Set List1- Come Together
2- Something
3- Maxwell's Silver Hammer
4- Oh! Darling
5- Octopus's Garden
6- I Want You (She's So Heavy)
7- Here Comes the Sun
8- Because
9- You Never Give Me Your Money
10- Sun King
11- Mean Mr. Mustard
12- Polythene Pam
13- She Came in Through the Bathroom Window
14- Golden Slumbers
15- Carry That Weight
16- The End
17- Her Majesty


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