Abbey Road - Beatles

Eu realmente não sei o que é mais difícil: voltar ao blog depois de tanto tempo ou escrever sobre os Beatles. Mas era preciso retornar com algo de peso. Nada mais pesado, nada mais relevante que a cultuada banda de Liverpool. Ainda se considerarmos que o único álbum dos Beatles presente no Rock Town! Downloads é um álbum 'não-oficial', lançado recentemente e com músicas alteradas.

A situação em 1969 - quando o álbum Abbey Road foi lançado - não era das melhores. John Lennon já havia conhecido a Yoko, o Ringo Starr já havia passado por diversas crises de complexo de inferioridade, George Harrison queria mais espaço para suas composições e Paul Mccartney aumentava cada vez mais sua influência com a ausência cada vez mais frequente de John. Os conflitos de cunho artístico e até ideológico permeavam a atmosfera dos fab-four e a banda caminhava para o fim. Mas pelo menos no caso dos Beatles, não havia como constatar algo, não havia como adivinhar o fim da história.

Os Beatles começaram em 1962, tocando em Liverpool. Um misto de composições próprias e covers dos rocks da época. Em questão de quatro anos eram a banda mais influente da história do rock. Em menos de dez anos eles mudaram de som, de visão sobre o mundo e até de visual por diversas vezes. Dos iê-iê-iês para a psicodelia mais lisérgica possível. Da ânsia em pegar na mão de uma garota adolescente até a preocupação com revoluções prontas para estourar pelo mundo nos fim dos anos 60. Dos cabelinhos tigelinha até o visual mais pesado, com longas barbas e cabelos. Um dia pensei até na teoria da banda ser extra-terrestre. Em mais ou menos oito anos, eles resumiram o caminho que uma banda deveria seguir, passaram por modificações aceleradas e sem exagero algum, conseguiram compactar toda a história do pop e do rock no pequeno período que estiveram na ativa. Com a rica discografia deles, você poderia se isolar numa ilha por muito tempo sem se preocupar com o que iria ouvir. Toda audição do som deles é uma novidade. Você nota detalhes mínimos em cada música, você avalia a performance do Paul no baixo, constata que o Ringo não era tão ruim assim, franze a testa com a mão no queixo e pensa que o Harrison era um ótimo compositor e fica prestando atenção no tom anasalado da voz do John.

O Abbey Road foi o penúltimo álbum lançado pelos Beatles, porém foi o último a ser gravado. Já era o registro de uma banda extremamente evoluída, mas não passava de uma compilação de fragmentos de uma ruína. Claro que se você entrar na atmosfera diversificada do álbum, nem vai perceber que havia uma série de discussões e conflitos.

Como se atentar para faíscas quando o álbum se inicia com a sexualmente flamejante 'Come Together'? O compasso perturbador alternado com ataques constantes de guitarra se debruçam no peso do baixo de Mccartney. A harmonia tem suas pausas estratégicas e ainda apresenta um solo simples, algo perfeitamente inserido. 'Something' é a música definitiva sobre o amor, sobre a admiração direcionada a quem se ama. George Harrison exibe nessa faixa o motivo pelo qual ele deveriar figurar entre os compositores da banda. A música se desenrola de uma forma tão bela, uma cadência decrescente na retomadas de harmonia, tudo, absolutamente tudo nessa canção emociona. 'Maxwell Silver Hammer' evoca uma estrutura muito semelhante à da canção do Sgt. Pepper's "When I'm Sixty-Four" com aquela levada típica de cabaré. A música conta uma história estranha de um cara chamado Maxwell e seu martelo prateado, com direito a mortes por martelada, julgamento e tudo mais. O trabalho com as cordas de guitarra conseguem ser ofuscados pela linha de piano que repousa suavemente sobre a harmonia. O rock gritado de 'Oh! Darling' é uma incrível interpretação do sentimento de desespero/humilhação feita por Paul. 'I Want You (She's so Heavy)' é a mais imponente música feita pelos Beatles. Com arranjos perfeitamente encaixados, uma bateria influenciada pelo jazz e o complemento entre dedilhadas minusciosas de baixo com acordes macios da guitarra, essa faixa é uma longa alternância entre um estilo mais descontraído e toneladas de notas alongadas e pesadas. E quando as nuvens estão caindo sobre o ouvinte, quando os intrumentos se aglomeram numa intensidade indescritível, o céu se abre e o sol aparece com a singela 'Here Comes the Sun'. Uma obra genial de Harrison que se torna ainda mais importante quando cantada por Lennon. Se você fechar os olhos e perceber a levada de violão ao fundo com as palmas, vai evidenciar a destreza de George Martin ao produzir o álbum. E a introdução do sintetizador Moog ficou perfeita, mesmo levando em consideração que eles estavam há pelo menos uma década antes da popularização dos sintetizadores no rock. 'Because' tem uma das mais belas construções harmônicas do rock, utilizando apenas dedilhadas sonolentas de guitarra e pequenos toques de baixo. O canto realmente é a atração da faixa. E quando tudo está maravilhoso, ainda melhora com a habilidade de Paul ao piano abrindo 'You Never Give me your Money'. Tristonha mas versátil, a canção explode num ritmo à la ragtime e o vocal passa de John para Paul mas isso é a última coisa que se percebe em meio a cantos influenciados pelo gospel e por uma repentina subida da guitarra que assume a frente e proporciona uma perfeita mudança de arranjo, com todos cantando:

"One two three four five six seven
All good children go to Heaven"
Diabos, vou pular algumas faixas, se não escrevo sobre todo o álbum. 'She Came In Through The Bathroom' utiliza recursos de R&B para levar o ouvinte a balançar a cabeça, os ombros num ritmo envolvente. E quando tudo fica em silêncio, a arrepiante 'Golden Slumbers' resplandece com um canto sóbrio de Paul que emociona quando se exalta e rasga o vocal no trecho 'Golden Slumbers fill your eyes/Smiles await you when you rise'. Tudo continua magnificamente triste até 'Carry That Weight' entrar no embalo da bateria e anunciar continuidade à nona faixa 'You Never Give me your Money'. E continuando naquele embalo, a profética 'The End' funciona como aquela apresentação dos membros da banda num show. Na bateria... Ringo Starr! E vem um solo de batera só pra exaltar os fã em euforia. E é isso que acontece: Ringo arregaça a boca do balão num solo tribal e mostra que não era o membro medíocre da banda (cabe citar que a faixa Octopus's Garden é de sua autoria). As guitarras são apresentadas com Lennon e Harrison se alternando em epopéias dignas de solos progressivos. Paul complementa com acordes profundos de baixo e repetidas notas de piano, só pra dar uma refinada na coisa.

Abbey Road é o álbum mais bem produzido da banda (talvez Sgt. Pepper's possa até rivalizar), e o grande trunfo do quarteto. Muita gente esquece desse álbum ao colocá-lo entre os melhores do rock, seja porque o fim já estava próximo, seja pela desunião do grupo. Mas eu tenho um jargão particular: "e isso, só os Beatles". Abbey Road é um registro coeso de uma banda em frangalhos. E isso, só os Beatles.

Set List1- Come Together
2- Something
3- Maxwell's Silver Hammer
4- Oh! Darling
5- Octopus's Garden
6- I Want You (She's So Heavy)
7- Here Comes the Sun
8- Because
9- You Never Give Me Your Money
10- Sun King
11- Mean Mr. Mustard
12- Polythene Pam
13- She Came in Through the Bathroom Window
14- Golden Slumbers
15- Carry That Weight
16- The End
17- Her Majesty


DÊ SUA NOTA PARA O ÁLBUM! Aqui embaixo você pode dar de uma à cinco estrelas para o álbum disponível nesse post. É só clicar em quantas estrelas o álbum merece e pronto!

19 Opinião(ões) de nosso(s) leitor(es):

Pipoko do céu
se pá você nem lembra mais de mim.
Cara essa foi a sua MELHOR descrição de um album.
Eu realmente GOSTO de Beatles, isso desde pivete. Mas nunca fui de procurar sobre eles, comprar coletâneas de cd ou de querer andar de camisetas. Eu não conheço a história deles. Mas eu GOSTO DAS MÚSICAS DELES. Pra mim é como gostar de sorvete, eu simplesmente gosto e muito, mesmo sem saber quem fez o sorvete ou o processo de produção. Enfim, eu adorei a maneira que vocÊ descreveu o album e me deu mais um UP, do porque eu gosto tanto das músicas deles (e não exatamente DELES). Alias, acho que sou tão simpática ao Ringo... não sei porque mas acho que ele deve ser o meu favorito, só por ser o excluido. hehe

Esse comentário eu tive que respoder hahaha!

Claro que lembro de você! E você acertou na mosca! Ao terminar de postar esse álbum, fui fumar um cigarro e pensei: caramba, quem vai querer baixar esse álbum? Todo mundo já deve ter ouvido! Mas logo me confortei ao entender uma coisa: em muitos casos, ouvimos um som e não percebemos que exite algo mais profundo dentro desse som, detalhes que podem deixar a música mais interessante. E esse é o objetivo do blog: apresentar algo mais para os visitantes. Não só um simples download. Fiquei feliz pra caramba com seu comentário!

Valeu mesmo!

Excelente retorno com os Beatles. O texto tbm tá primoroso, vc fez uma analise perfeita.
valew

Come Together, Something, Maxwell's Silver Hammer, I Want You (She's So Heavy), Here Comes the Sun são as melhores! =]
Poxa Fê, mil anos sem falar contigo! E tu posta o álbum mais foda dos Beatles depois do White Album! hahaha x)

saudade!

Esse álbum é tão tão forte!!! Sempre mexe comigo qundo eu o escuto...
E sobre a banda....o que falar???
Acho que The Beatles foi um exemplo bem sucedido da mímese aristotélica.
= )
Cay

Nada melhor voltar com o blog do que um álbum dos Beatles. Me deu até vontade de escutar agora, já que os lançamentos estão me aborrecendo bastante. Voltei a escutar as velhas boas coisas. Fiz até um especial dos kinks no meu blog
http://musicaparaseusouvidos.blogspot.com/
Valeu! Não para não cara..

Minha vida, assim é covardia, hein?

something in theee wayyyy shee mooooveees (8)

Saudade de vc!
Bjs !
=D

Olá Felipe

Eu costumo a usar um jargão próprio "somente os beatles e os diamantes são eternos".
Abbey road é um disco da pesada mesmo, e é cheio de contornos do rock progressivo. Note o sintetizador de "here comes the sun" ao fundo da parte em que se canta "sun sun sun here comes...".
Esse disco é um dos meus favoritos cara, você acertou em cheio. Também concordo com vc em colocar "abbey road" nas listas de discos.

Voltar o blog com o Beatles é mais que provencial.

Só corrigindo, cara: em "The End", o Paul também faz parte daquele solo de guitarra. Perceba que o solo é sempre dividido de 3 em 3 frases, e ocorre nessa ordem: Paul, George e John. Isso 3 vezes.

Esse disco é FODA!!!!!!!!

Mas tem que rolar uma pausinha do Lado A pro Lado B, sempre!!

Abraço

E no fim do álbum e consequentemente da banda, concluimos: beatles é a algo divino!

esse disco não precisava de resenha. bastava colocar o link e escrever: ouçam a obra-prima da música.

(enfim...boa descrição).

Link Invalido :(
Atualize o Link, por favor.

Gostei da descrição... esse álbum é realmente impressionante. Só pra complementar (se é que precisa!) em "The End" as guitarras não são só do George e John, o Paul tb toca uma guitarra. Se vc reparar são 3 timbres diferentes, um pra cada. Se não me engano, a ordem é George, Paul e John... e é uma diversão acompanhanr eles tocando um após o outro. Abraço!

Meu álbum preferido dos Beatles.
Falow ae.

Adorei sua descrição do álbum, nossa vc contou a história dos Beatles de forma mais interessante do que aqueles "sites-enciclopédia"! Gostei de mais, mas queria que vc, se puder é claro, postasse álbuns nacionais tbm. Valeu!

Muy bueno!

http://www.mediafire.com/?etjastrlqr8p9ot