Loyalty to Loyalty - Cold War Kids

Vira e mexe eu fuçava pelas páginas mais diversas da internet atrás de informação sobre um eventual novo disco do Cold War Kids. O primeiro álbum dessa banda fundada na Califórnia, mais precisamente em Fullerton, me arrebatou os sentidos. Fazia tempo que um álbum não me chamava tanto a atenção. Era um equilíbrio raro entre um rock áspero e perfeitos elementos de baladas pop. Não, não... nada de açucar nessa composição toda. No álbum Robbers and Cowards eles faziam um som extremamente acessível, mesmo quando as letras evocavam os vultos que rastejam córregos de ruas infestadas de pecado, crimes, desgosto com a vida e tudo o que há de pior numa vivência urbana e acima de tudo realista. Toda a potência do piano era utilizada de forma precisa para intensificar a agonia do ouvinte. Tudo era perfeito. E continua perfeito!

No dia 23 de setembro desse presente ano, o Cold War Kids lançou seu segundo álbum, o Loyalty to Loyalty e foi com imenso prazer que me postei a ouvir o novo som dos caras. Andei lendo umas críticas gringas e as opiniões estão bem empatadas. Pra uns, o encanto sumiu. Para outros, eles permanecem uma puta banda com um puta som. Eu concordo que o primeiro álbum é inatingível em seus êxitos particulares que descrevi acima, porém permanecem com uma sonoridade que se agarra a um vigor febril, contaminado por pequenas células de desânimo, um quê de desgraça que desaparece caso o ouvinte desejar. 'Against Privacy' abre as cortinas do espetáculo com melancolia, luzes baixas e expectativa. Toda a sonoridade escancarada, as batidas típicas de Matt Aveiro com aquela trama acústica, exibindo um compasso firme na classe do jazz e o vocal de Nathan Willet, escandaloso, despreocupado e ressonante constroem nessa primeira faixa uma fachada imponente que anuncia com sua beleza sombria os atrativos do interior do edifício. 'Mexican Dogs' intensifica os impulsos, com a guitarra finalmente mostrando sua serventia, a atmosfera se torna densa. O canto de Willet corta o ar enquanto o swing negro dos acordes de guitarra propiciam momentos de dança ou de um simples balançar de cabeça, a aprovação mais singela e sincera. Trechos e mais trechos de cordas entrelaçadas e arrepiantes evidenciam um despertar na sonoridade da banda, que no trabalho anterior se concentrava em canalizar o poder das notas para uma representação angustiante. Agora a banda abre as portas para algo mais rock'n'roll. 'Something is not Right with Me' se reveste de uma urgência no seu desenrolar, é cantada como se o ar estivesse acabando. O piano veloz entope de aflição a melodia e mesmo assim, a banda consegue incluir pausas onde a dupla baixo e bateria dão conta do recado, enquanto Willet canta:

passions of people sleeping late into the evening
reach behind, they can hardly find their spines

'I've Seen Enough' é a balança pendendo mais para o pop. Todo o arranjo trabalha soturno em prol do vocal que com toques de tormento vacilante, completa a perturbante e ao mesmo tempo graciosa canção. E por fim, confira 'Relief'. O trabalho do baixo é marcante e a variação de tons agudos no vocal é prova de liberdade na composição das faixas.

Embora muita gente tenha se decepcionado por não ter ouvido um novo 'We Used to Vacation' (incrível primeira faixa do álbum anterior), o que importa é apreciar a regularidade do som deles. Em uitos casos é bom a banda contituir uma identidade primeiro, antes da chegada das mudanças. Muitas bandas pecam por lançar um primeiro álbum explosivo e em seguida, mudar da água pro vinho, sem firmar a identidade. O Cold War Kids está no caminho dessa confirmação.

Set List

1- Against Privacy
2- Mexican Dogs
3- Every Valley Is Not a Lake
4- Something Is Not Right with Me
5- Welcome to the Occupation
6- Golden Gate Jumpers
7- Avalanche in B
8- I've Seen Enough
9- Every Man I Fall For
10- Dreams Old Men Dream
11- On the Night My Love Broke Through
12- Relief 3:02
13- Cryptomnesia

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Centuries Before Love and War - Stars of Track and Field

Não é segredo algum que no "novo rock" as batidas digitalizadas são cada vez mais presentes. New Rave, Punk Pop, Eletro Rock... Todo esse bolo é recheado de batidas, açucaradas pelos avanços técnicos que garantem pureza cristalina e fidelidade de som, principalmente quando juntamos todo o arranjo e numa audição, nos sentimos no meio de um show. Agora como utilizar desse recurso eletrônico sem ficar na sonoridade piegas que vira e mexe você ouve nos redutos indies de sua cidade (seja numa balada ou a casa de um amigo descolado)?

O Stars of Track and Field (STF) - que também é o nome de uma música do Belle and Sebastian - é uma grata exceção no meio de tantas bandas que desgastam sua proposta sonora com batidinhas. A verdade é que variar as batidas, mudar o tempo delas, fazer uma confusão em forma de pancadas não significa sair do convencional. Até porque o ponto principal dessa questão é como aliar esse recurso à uma estética rock sem que todas as músicas percam a rebeldia das guitarras. E é disso que falo quando incluo o STF dentro das exceções entre a mesmice da cena atual. A banda americana formada em Portland, Oregon apresenta canções riquíssimas em harmonia, melodias que arrepiam, mas que empolgam também, te carimbando uma passagem sem volta para uma viagem de guitarra. Fica no meio termo entre a sensibilidade para emocionar que o Sigur Rós tem e as chicotadas de cordas distorcidas do Death Cab for Cutie. Mas não pense que você vai se derramar em prantos. Não. Ela emociona pelo ajuste da rica melodia com vocais suaves e esparramados, mas é interessante como não fogem do contexto.

O trio lançou seu primeiro EP chamado You Came Here for Sunset Last Year e chamou a atenção da mídia especializada. Rádios independentes tocavam o som deles e divulgavam shows que não paravam de ser marcados (e como de costume, eu os achei na KEXP, rádio de Seattle). O bom nos EUA é como existem rádios que tocam incessantemente sons de bandas da cena da própria cidade. Isso ajuda muito bandas que estão começando, principalmente no agendamento de shows. Eles contaram com bons produtores para essa EP, como Tony Lash (já produziu Dandy Warhols e Elliot Smith) e Jeff Saltzman (que já produziu o ex-Pavement Stephen Malkmus). Um trabalho sério e que deu frutos. E o maior fruto de todos é o primeiro álbum deles, o Centuries Before Love and War que contém algumas faixas do EP. As canções novas do álbum não fogem à linha do trabalho experimental: complexas, calculadas e emocionantes.

Acredite, as batidas digitais dançam uma valsa fodida com a guitarra, formando uma atmosfera densa, formando um rock sólido, embora seja interrompido com trechos de vocal suave acompanhado de piano, como podemos notar na música 'With You'. Se você ouvir 'Say Hello' e fechar os olhos durante introdução que termina com a guitarra dando uma "sapatada na sua nuca", você vai notar a musicalidade aflorando em todos os canais possíveis. Os solos durante essa música são nostálgicos, o tempero que as batidas dão te fazem pensar: onde essa banda estava que eu não encontrei antes? O som deles também se mostra muito maduro durante canções mais calmas, como é o caso de 'Let Ken Green', quando os instrumentos e vocal suave, criam uma harmonia poucas vezes vista, quase hipnótica. É som para poucos.

"Porra Pipoko! O álbum foi lançado em 2006 e só agora aparece aqui?". Tá bom, eu sei. Mas a velha máxima entra em ação: "antes tarde do que nunca". Esse é um álbum bem produzido, bem executado e com um rock quase perfeito, não devendo em intensidade nem em emoção.

Set List

1- Centuries
2- Movies of Antarctica
3- With You
4- Lullabye for a G.I./Don't Close Your Eyes
5- Real Time
6- Arithmatik
7- U.S. Mile 5
8- Say Hello
9- Exit the Recital
10- Fantastic


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Indoor Living - Superchunk

Posts atrás, falei sobre uma banda chamada Polvo. Quando disse que eram de Chapel Hill, na gelada Carolina do Norte, muita gente pode ter se perguntado: "Chapel quê? Carolina de onde?", porém outras pessoas já associaram essa cidade com uma das bandas mais conhecidas pelo underground americano: o Superchunk. Foi lá que em 1989 o vocalista e guitarrista Mac McCaughan, a baixista Laura Ballance, o baterista Chuck Garrison e o guitarrista Jack McCook formaram a banda que a princípio se chamava Chunk. Mas como havia em Nova York uma banda maluca de jazz com o mesmo nome (e mais antiga), eles adotaram o "Super" para diferenciá-los. E quando falo em histórias envolvidas com atitudes para diferenciá-los, não existe somente esse caso. O que realmente importa é o que os diferencia no campo sonoro, o que os separa de outras bandas (da época e de hoje também). Comece pelo vocal saliente, agudo, fanho (como quiser classificar) de McCaughan, elemento que já levanta a antena do ouvinte, que detecta alguma diferença no entoar de canções abrigadas por notas de guitarras distorcidas, rasgadas, evocando o punk dos anos 70, o hardcore dos anos 80, fazendo a junção e agregando ainda ondas agitadas de pop. Existe sempre aquele cara que irá dizer: "porra, mas isso é fácil, todo mundo faz". Mas não do jeito que esses americanos fazem. O som da banda é uma síntese dos anos 90, das suas influências, do que tocou nas rádios, no que tocou no subterrâneo mundo do indie autêntico - autêntico sim, pois o Superchunk sempre recusou propostas de gravadoras maiores, pois eles almejavam mais que discos vendidos, almejavam liberdade.

O álbum Indoor Living, lançado em 1997, e a continuidade de grandes trabalhos anteriores, como No Pocky for Kitty ou On the Mouth. Não é um trabalho inovador, mas ganha pontos por estabelecer a identidade da banda, com uma estética crua aliada a elementos harmônicos do pop e sem prostituir seu som. Quem ouve o álbum, facilmente reconhecerá a banda. Aqui existe aquela aspereza típica do Hüsker Dü, misturada com uma explosão de cordas bem resgatada do The Who (fique atento para a faixa 'Song for Marion Brown' que copia claramente a guitarra inicial da música Baba O'Riley). A primeira faixa 'Unbelievable Things' tem uma levada mais acessível e brinca num solo de guitarra rasante, bem no estilo J. Mascis. Taí um fruto da influência do Dinosaur Jr. na questão de trazer de volta os solos para o rock alternativo (que estava muito veloz graças ao punk). 'Burn Last Sunday' tem os ingredientes que caracterizam uma canção dos anos 90. Ataques rápidos em notas distorcidas, breaks de intensidade para dedilhadas de baixo e guitarra dançando junto com a voz quase adolescente de McCaughan. Um riff simples sem alterna com variações complicadas das cordas e viradas à la Keith Moon na bateria. É questão de prestar atenção pra notar a beleza. 'Watery Hands' é a coisinha pop do álbum. É fácil de cantar (cantar alto mesmo), tem aquele conforto sonoro de fundir esse citado pop com uma cobertura espessa de rock. E vale abusar em trechos vocais, para marcar ainda mais a música no fã. Principalmente quando ele canta "... kiss your (watery hands)". Não tem como esse trecho não grudar na sua mente.

Como disse acima, não se trata de inovação, e sim de continuidade. Muitas bandas indies vão perdendo o sal (ou açucar) durante os anos e isso é lamentável. Não dá pra se adaptar à mudanças bruscas sem quase morrer do coração. A banda não fez sua grande obra nesse álbum, mas também não deu susto nenhum. Vai por mim, isso é muito bom quando se trata de Superchunk.

Set List

1- Unbelievable Things
2- Burn Last Sunday
3- Marquee
4- Watery Hands
5- Nu Bruises
6- Every Single Instinct
7- Song for Marion Brown
8- The Popular Music
9- Under Our Feet
10- European Medicine
11- Martinis on the Roof


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