Ode to Sunshine - Delta Spirit

Quando soube da banda, a primeira coisa em que pensei foi na vertente do blues vinda do delta do Mississippi, o que automaticamente me levou a pensar: deve ser som triste. Na primeira audição, leia-se primeira faixa, achei que meu julgamento precoce seria confirmado. Mas como num salto, do fundo de um abismo para verdes planícies, a banda de San Diego, Califórnia, se faz valer de poderosas e agitadas notas e invoca almas angustiadas para se juntar ao coro que liderado por Matthew Vasquez, faz um belo trabalho vocal amalgamado num indie rock regado de temperos folk, sim, não é folk-rock ou anti-folk. Apenas um temperinho caipira. É aquele bom e velho indie tão peculiar à nossa década, com o folk tão peculiar ao fim da mesma década. Mas se você já enjoou daqueles grupinhos vestidos de marrom, barba por fazer e canção que não condiz com a realidade deles, tudo para besuntar músicas com letras oleosas e tendenciosas, esqueça de relacionar o Delta Spirit à toda essa farsa.

No álbum Ode to Sunshine, lançado em 2007, tem ótimas cargas de piano, um senso de produção apurado e competência de sobra para ligar o seu alerta e te abrir os olhos para os próximos trabalhos desse grupo que fará você lembrar do Cold War Kids. Dê uma olhada de primeira na locomotiva musical que 'Trashcan' apresenta ou na firme e calcada 'People C'mon' que apresenta uma bela letra, agonizante nos vocais e pausada em sua maior parte. Uma bela harmonia de fato. 'Parade' é enraizada no rock clássico, com acordes pitorescos e de levada rasteira e certeira. 'Bleeding Bells' desmonta o ouvinte com uma melancolia adocicada, algo de Bob Dylan no modo de conduzir a voz em meio à notas leves de violão, e interposições de instrumentos de sopro. Simples e belo.

Posso divagar aqui sobre muitos motivos que farão você babar no teclado e clicar no link abaixo. Querem que eu diga "isso é som de primeira" ou "coisa fina, vai por mim"? Vá baixar essa porra logo!

Set List

1- Tomorrow Goes Away
2- Trashcan
3- People C'mon
4- House Built for Two
5- Strange Vine
6- Streetwalker
7- People, Turn Around
8- Parade
9- Bleeding Bells
10- Children
11- Ode to Sunshine


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Dyed in the Wool - Shannon Wright

Muitas deusas que compoem o panteão do rock feminino já empoeiram seus doces pés na estrada há um bom tempo. Cat Power, PJ Harvey, Julie Doiron entre outras gozam de destaque em nossos dias, graças à dura plantação de sementes. Shannon Wright, americana nascida em Jacksonville, Flórida, é uma delas. Com voz repleta de personalidade, identidade sonora vinda de um peso extra em cada acorde, cada batida. Ao ouví-la, não há como não sentir um nevoeiro denso se instalando lentamente na mente. Sua voz suave disfarça bem a dor de suas letras, a mortalidade próxima, tangível em sua poesia. Mas nem tudo se resume ao negror da vida ou da sensação do fim da mesma. Dentro de cada cápsula de melancolia, existe um êxtase musical, fundamentos bem fixados do indie rock dos anos 90, uma despretensão em relação à perfeição, uma mescla de acordes angustiados da guitarra com toques suaves de piano, entrelaçados por batidas assimétricas que fazem o som rastejar, fazendo vítimas numa execução sorrateira, com resultado pernicioso.

Lançado em 2001, Dyed in the Wool o quarto álbum solo de Wright é devastador (solo sim, ela é ex-vocalista do Crowsdell). Usa de técnicas conhecidas pelo público, como também entra em experimentos de cunho melancólico. Com produção de peso, tendo Steve Albini como engenheiro de som e Andy Baker como produtor, Wright gozou de liberdade para estender sua visão musical, numa flexibilidade admirável. Ela incendeia qualquer receio com uma entrada triunfal na primeira faixa, 'Less Than a Moment'. Harmonia perfeita, indie rock de primeira e o vocal adocicado fazem da faixa um delicioso aperitivo, daquele que se fosse prato principal, seria bom da mesma forma. 'The Hem Around Us' é a faceta tristonha, uma especialidade da cantora. Cordas que choram em meio à uma batida quase fúnebre contrastam com a voz soberba, pretensiosa em acertar o sentimento. Na mosca. 'Vessel for a Minor Lady' é de beleza única, uma pérola encravada no meio de um álbum tão curto. Lamentável ser tão curto. A faixa que dá nome ao álbum 'Dyed in the Wool' é sólida, incontestável quando o assunto é rasgar estruturas em nome de algo experimental, algo que profane a sagrada mesmice. No início, Wright flutua com sua voz, se sobrepondo à guitarra. Batidas surgem e a música toma outros rumos. Toda vez que Wright canta "I will keep you sane", a melodia se intensifica, até que na última vez que ela canta, o pau come solto, dedilhadas rápidas nas cordas, seja da guitarra, seja do baixo, elevam o caos escondido em cada trecho dessa faixa sensacional, no melhor que esse adjetivo pode ter.

Não sei se pode ser a consagração da cantora. Mas Dyed in a Wool é de uma riqueza harmônica indescritível. Wright tem um vocal sedutor e ao mesmo tempo repelente. É agradável e perturbadora. Mexendo assim com nossos sentidos, fica difícil escolher se ela é doce ou amarga. Cá entre nós, tem hora que o amargo cai bem.

Set List

1- Less Than a Moment
2- The Hem Around Us
3- Hinterland
4- Vessel for a Minor Malady
5- You Hurry Wonder
6- Dyed in the Wool
7- Method of Sleeping
8- Surly Demise
9- Colossal Hours
10- The Path of Least Persistence (Figure II)
11- The Sable
12- Bells


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The Coast is Never Clear - Beulah

Amigos desde 1994, quando eram colegas de escritório em São Francisco, Califórnia, Miles Kurosky e Bill Swan sempre andavam juntos, curtindo o mesmo som. Até ai, é um caso comum. Uma das melhores coisas é trabalhar com pessoas que curtem o mesmo som que você. O dia passa mais rápido, a angústia do trabalho, seja lá qual for, é amenizada. Mas isso sempre acontece. O diferencial é que Kurosky e Swan juntaram todo o amor pela música e resolveram em 1996 trabalhar em gravações próprias, feitas naquele estilo lo-fi, por mais ou menos um ano e meio. O resultado desse tempo de dedicação foi o EP 'Small Cattle Drive in a Snowstorm', lançado em 1997, pela célebre gravadora Elephant 6. A repercussão foi relativamente boa, o que os fez lançar um álbum no mesmo ano. Já o álbum não foi aquela coisa que podemos dizer: "nossa, que álbum incrível!", até porque a crítica não foi muito favorável. Turnês com Neutral Milk Hotel e Apples in Stereo (ambas da Elephant 6) os colocaram em evidência. E dois anos depois, já em outra gravadora, eles se reergueram, lançando um álbum que marcou finalmente o estilo da banda, que já contava com Steve LaFolette (baixo e vocais), Pat Noel (guitarra e teclado), Steve St. Cin (bateria), Bill Evans (belo nome, hein(?) e ainda tocava teclado!). O álbum When Your Heartstrings Break foi muito bem aceito por público e crítica, o que sempre causa aquela expectativa em relação ao próximo álbum. Será que a redenção daria fôlego para mais uma ótima obra?

Em 2001, o álbum The Coast is Never Clear foi lançado, e começou do mesmo jeito que terminou a última obra em 1999: em ritmo lento, calmo. Com cordas de violino e toques singelos de piano adornando a abertura do álbum na faixa 'Hello Resolven', Kurosky começa seu canto, anestesiado por um coro suave, abraçando a atmosfera de calmaria. Mas quem acredita que o álbum assumiria essa textura sonora, se engana. 'A Good Man is Easy to Kill' é bela, embriagada em harmonia que conta com passagens de violino e trompete. Porém o que mais dá gosto em ouvir é todo o arranjo, inseparável, pois embora tenha diversos destaques instrumentais, não há como se apegar a um detalhe apenas. A música rola solta, descontraída, cativante. A melhor faixa do álbum. Logo em seguida 'What Will You Do When Your Suntan Fades' segura o nível de qualidade proposto. Em cadência de bossa, backing vocals oportunos e bem encaixados, a faixa é relaxante, sugerindo um fim de tarde na praia, um passeio de bicicleta ou até momentos de amor num quarto qualquer numa cidade caótica. A verdade é que não importa o ambiente real, a música te transporta para outro plano. É ouvindo músicas como essas que eu firmo minha crença na música e seu poder. 'Gene Autry' já começa mais rock, porém vai se apoderando da marca da banda, com exploração de sons dos intrumentos, com meticulosas inserções de trechos de cordas, de sopro. É uma overdose de genialidade, de noção musical, de vocação para composições que não fogem da estética pop, porém assumindo a responsabilidade de não cair nos paradigmas sofridos da música popular. O disco é inteiramente intocável.

Para quem é acostumado a ouvir Belle and Sebastian, não vai ser difícil assimilar cada nota, cada palavra cantada. E mesmo quem não faz a mínima idéia do que seja indie rock, vai se entregar da mesma forma. Afinal, estou falando de boa música, acessível e universal. Elementos dos mais rudimentares como as simples palmas se aliam à sofisticação das junções instrumentais. Vale cada segundo de espera pelo download.

Set List
1- Hello Resolven
2- A Good Man Is Easy to Kill
3- What Will You Do When Your Suntan Fades?
4- Gene Autry
5- Silver Lining
6- Popular Mechanics for Lovers
7- Gravity's Bringing Us Down
8- Hey Brother
9- I'll Be Your Lampshade
10- Cruel Minor Change
11- Burned by the Sun
12- Night Is the Day Turned Inside Out


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Coisas - Moacir Santos

Nesses tempos de celebração pelos cinquenta anos da bossa nova, acho que o RockTown! Downloads deveria prestar uma homenagem a esse ritmo brasileiro sempre recordado por seu requinte, sua elegância e sofisticação. Achei que colocar o álbum Chega de Saudade do João Gilberto seria uma atitude muito óbvia. Vinícius de Moraes era uma boa pedida, mas já é bem conhecido do público. O Tom então, putz, mais conhecido não há. De repente me veio uma luz. Luz vinda diretamente do sertão pernambucano. Moacir Santos, o grande instrumentista e professor de grande parte da nata da bossa nova, como Baden Powell, João Donato, Nara Leão, Roberto Menescal, Sérgio Mendes entre outros, merece realmente que seu trabalho seja mais reconhecido do que vem sendo.

Moacir saiu do já citado sertão de Pernambuco, onde tocava em bandinhas locais (aprimorando suas noções musicais), em meados da década de 30, para já na década de 40, mudar para o Rio de Janeiro, grande centro cultural do Brasil na época. Trabalhou em rádios, regeu orquestras como a da TV Record em São Paulo, trabalhou em parceria com grandes nomes, seja como professor ou como parceiro de composição. Vinícius de Moraes em toda sua grandeza, reconhece a maestria de Moacir no 'Samba da Bênção':

Moacir Santos, tu que não és um só, és tantos
Como este meu Brasil de todos os santos


A MPB se prostra diante da imagem criativa de Moacir, a bossa nova deve sua existência à sua genialidade e iniciativa de restauração harmônica da música brasileira. Seu grande trabalho, a referência definitiva do que é Moacir Santos, é o álbum Coisas, lançado em 1965. O compositor exibe toda a modernidade de sua música em dez faixas que viajam entre batuques afro-brasileiros misturados à suaves notas de jazz que propiciam uma sensível atmosfera musical, relaxante ao extremo. De tanta complexidade, a cabeça adormece. Quando você fecha os olhos, começa a visualizar no escuro uma orquestra, minuciosa em cada conjunto, em cada contraponto instrumental. A sonoridade é instável, num ótimo sentido, como podemos notar na faixa de abertura 'Coisa Nº 2'. Há uma estética pesada com notas graves, velozes e repetidas de trompete, agregando classe aos acompanhamentos africanos, que sugerem um fervor rítmico nas batidas de atabaque. E eis que surge o delicioso improviso típico do jazz, seja em solos de trompete ou de sax. Ainda por cima, não há como não ficar de boca aberta com a estrutura dos arranjos, os caminhos que os intrumentos tomam. É incrível. E isso é só o começo. 'Coisa Nº 5' é perturbador, aplicando pressão em nossa percepção musical, chegando com passos curtos e desafiadores que aos poucos vão cedendo para uma linha mais clássica, nos remetendo à ponte entre o clássico e o moderno, o erudito e o popular. Moacir nos entrega a chave da compreensão e nos brinda com qualidade indescritível. 'Coisa Nº 6' é urgente, se aproximando do Caribe e suas influências negras. Abraça Cuba em sua extensão, e abrilhanta ainda mais o seu trabalho com a mescla de ritmos.

O álbum Coisas é a tradução da música negra não só no Brasil, mas também na América, de cabo a rabo, da Argentina ao Canadá. É uma deliciosa viagem musical de um extremo ao outro, da alegria das massas num carnaval de rua brasileiro ao frenesi das apresentações de jazz no Carnegie Hall em Nova York. Moacir Santos é bossa, samba, jazz, ou como dizia Vinícius, "Moacir Santos, tu que não és um só, és tantos".

Set List

1- Coisa No. 4
2- Coisa No. 10
3- Coisa No. 5
4- Coisa No. 3
5- Coisa No. 2
6- Coisa No. 9
7- Coisa No. 6
8- Coisa No. 7
9- Coisa No. 1
10- Coisa No. 8


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