Magic - Bruce Springsteen

Mentalize as personalidades do rock que envelheceram e perderam o feeling. Vieram muitas à sua cabeça? Claro que as faces que surgirão nas cabeças dos vários leitores serão bem controversas, afinal, pra uns o Eric Clapton ficou uma porcaria, pra outros não. Mas não vale traçar uma opinião só porque a crítica exaltou um trabalho. Tem muita gente que não curte ouvir Paul MacCartney mas diz que ele continua bom, só porque a Rolling Stone escreveu algo de positivo. Aqui na minha cabeça apareceram várias figuras, como os Rolling Stones, o último disco foi uma porcaria, resumindo: eles não produzem como antes, isso é fato. Embora David Bowie seja um deus para mim, ele não tem mais a explosão de vida da juventude, das drogas e da intensidade das novas experiências. Trocando em miúdos: ele também tá por fora. Ponto. Agora o que mais me deixa envergonhado (sim, vergonha por eles, pelo ridículo que passam) é quando grandes nomes tentam (em vão) se ajustar aos moldes atuais, se aventurando em epopéias furadas de indie-rock, eletro-sei-lá-o-quê e new-lá-vem-merda. Sempre achei que o Bowie devia tocar seu glam-rock, lambuzado em experiências de disco. Era isso que ele sabia fazer. Pra quê mudar? Pra vender mais? Os Stones mantiveram a maioria de suas características no último disco, mas o desgaste da imagem deles, dos trilhões de singles e álbuns, se misturou a falta de inspiração. Poderia dar muitos exemplos, mas vi que prolonguei esse artigo mais do que deveria.

E o que esse primeiro parágrafo tem a ver com o bom e velho Bruce Springsteen? Posso lhes escrever: Bruce Springsteen voltou a velha forma que o consagrou nas décadas de 70 e 80. Ele pode ter tropeçado em pedras de tendências nos anos 90, lançando discos no máximo mornos e cometendo os erros dos artistas acima citados, mas desde 2002 o representante das massas sofridas acertou na dose, e com ingredientes antigos, vem lançando trabalhos de respeito, que faz a nossa geração ter uma idéia do que era ouvir algo novo do cantor e compositor americano. Quem curte Springsteen e assistiu Geração Prozac (Prozac Nation), viu a bela Christina Ricci no papel da jovem estudante de jornalismo Elizabeth Wurtzel escrevendo sobre um novo trabalho do cantor, se não me engano era o álbum Tunnel of Love (pelo pôster que ela tem no quarto - erro de cronologia, pois o disco foi lançado em 1987 e a história se passa em 1985), e muitos pensaram: caramba, eu queria viver naquela época, ou melhor, queria ser um estudante naquela época. Apreciar um trabalho novinho em folha e saber que ali nascia um clássico.

Em 2007 nasceu um clássico. Magic é o mais vigoroso e original trabalho de Bruce Springsteen desde o Tunnel of Love. Não, a comparação não é devida ao filme, e sim pelo fato de que depois desse álbum (lançado em 87), o cantor lançou um outro em 1992 que já era fraquinho para o poder de criação e execução do artista. Nossa geração é brindada por um trabalho que evoca as grandes características dos velhos tempos: letras políticas bem elaboradas e que não cansam os ouvidos com as mesmas premissas idiotas e desgastadas e o principal (afinal, nem todo mundo liga para as letras): o velho rock'n'roll que contagiava públicos pelo mundo inteiro. Muita gente falou e eu engrosso o coro: Bruce Springsteen voltou a tocar rock. E grande prova disso é a primeira faixa, 'Radio Nowhere' que acerta na mosca quando o assunto é explosão de guitarras num equilíbrio perfeito que enaltece as raízes do cantor, ou seja, as levadas dos anos 80 que embelezavam as ondas radiofônicas pelo mundo. E aí está o ponto: Springsteen conseguiu reconstituir o velho som, aquilo que ele sabe fazer e que, para espanto de muitos, não está ultrapassado. 'You'll be Comin Down' continua com a deliciosa levada da primeira faixa e só comprova a autenticidade do trabalho de Springsteen. Feche os olhos e não vai ser difícil se imaginar nos anos 80. Não poderia deixar de creditar à E Street Band o trabalho genial dos arranjos. 'You Own Worst Enemy' é uma canção mais amena e que não encontraria dificuldades em figurar entre as faixas de Born to Run de 1975. 'Magic' é uma pausa na euforia, para rememorar a habilidade inconfundível de Springsteen em compôr letras e atribuir sentido à elas:

I got a shiny saw blade
All I need's a volunteer
I'll cut you in half
While your smilin' at me
And the freedom that your songs
Drifting like a ghost amongst the trees
This is what we'll be
This is what we'll be


Nessa canção, toda a vida é comparada a procedimentos de mágica. Cortar um voluntário no meio, cartas na manga, coelho no chapéu, moedas sumindo, tudo tem um paralelo com nosso cotidiano. Em 'Terry's Song', Springsteen se utiliza da estética do folk-blues para homenagear um amigo, Terry Magovern, falecido no ano do lançamento do disco. Ótimo desfecho para um trabalho incrível.

Magic é mágico. A magia de transportar épocas, de mobilizar memórias e transformá-las em momentos presentes. Esse álbum é uma chama de esperança para os saudosistas que acreditam que aquele tempo bom não volta mais. Viva Bruce Springsteen!

Set List

1- Radio Nowhere
2- You'll Be Comin' Down
3- Livin' in the Future
4- Your Own Worst Enemy
5- Gypsy Biker
6- Girls in Their Summer Clothes
7- I'll Work for Your Love
8- Magic
9- Last to Die
10- Long Walk Home
11- Devil's Arcade
12- Terry's Song

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Film School - Film School

- Não é emo não? - me perguntou um amigo quando o questionei sobre o conhecimento dele em relação ao Film School.
- Não é não...

O nome não nos remete aos grandes nomes do rock. Aliás, nos faz pensar que se trata de mais uma banda de estudantes vagabundos americanos que vêem no rock a oportunidade pra ganhar uns trocados. Acredite, tem muita gente assim. Mas quando se trata do Film School, o ouvinte se impressiona com a honestidade do som, da desenvoltura da flexibilidade sonora que apresentam, com uma naturalidade incrível, causando um efeito de inércia no ouvinte. Com tantos efeitos de eco, momentos de prazerosa dissonância com longos trechos instrumentais como ouvimos no shoegaze, a banda formada em 1998, na cidade de San Francisco, Califórnia, não inova no sentido de inventar, mas se diferencia pela sensibilidade musical, num mundo tão inóspito e sem graça, que vive de baladinhas de punk-pop ou new-wave/rave.

Film School, disco lançado em 2006 não é um sucesso de vendas, não os ergueu ao status de estrelas do indie-rock, mas é nesse disco que todo o conhecimento - proveniente de bandas como Cure, Echo and the Bunnymen e My Bloody Valentine - é exposto com louvor, quando a incrível voz de Nyles Lannon atravessa barreiras entrelaçada com os seus acordes raivosos da guitarra. Os arranjos do grupo são perfeitos, principalmente quando se trata do efeito bateria e baixo. A sincronia desses dois instrumentos - em muitos casos - atrapalha o trabalho competente de uma guitarra, ou até mesmo o baixista é competente, mas o baterista se atrapalha inteiro ou vice-versa. No caso do Film School, o disco inteiro é uma ode à sincronia perfeita, parecendo muito o Gang of Four, por exemplo, que na minha opinião é a banda que mais sabe aproveitar essa união instrumental. 'On and On' é soturna, com acordes dedilhados e um ritmo marchado da bateria. Altos e baixos na intensidade e melodia acessível. São quase seis minutos de uma canção que tem como trunfo o vocal maleável de Lannon. 'Pitfalls' é oitentista em sua essência, inegável. Uma guitarra ao fundo evocando a transição pós-punk - new wave, mas sem tropeços nem delongas. Mas o maior destaque é mesmo 'He's a DeepDeep Lake' que começa com um dos trechos de bateria mais marcantes que você ouvirá em sua vida. Depois, a harmonia leve se alterna com uma deliciosa e visceral linha de guitarras que, extremamente compatível com os efeitos de teclado, se torna irresistível. O baixo tem espaço essencial na compsição do arranjo, que fica sombrio, enegrecido, tema perfeito de uma tarde tenebrosa e acinzentada.

A banda como citado acima, não é inovadora, mas apresenta uma proposta diferenciada para a nova geração de apreciadores do rock. Com complexidades similares a do noise-rock e o minimalismo presente no math rock (quantas vertentes tem esse rock'n'roll!), o Film School apresenta uma maturidade admirável para uma banda que completa nesse em 2008 dez anos de existência.

Set List

1- Intro
2– On and On
3- Harmed
4- Pitfalls
5- Breet
6- He’s a DeepDeep Lake
7- Garrison
8- 11:11
9- Sick of the Shame
10- Like You Know

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Passover - The Black Angels

Formada em 2004, na cidade de Austin, Texas, os Black Angels são uma mistura de elementos que para muitos não é novidade: letras cáustica à la Velvet Underground, um som sorrateiro e esquizofrênico tal qual podemos ouvir no Jesus and Mary Chain e por quê não citar a semelhança (não clonagem) com o Black Rebel Motorcycle Club? Você pode dizer: "lá vem mais uma banda que se diz influenciada pela banda do Lou Reed", e conseqüentemente vai torcer o nariz. Afinal, é inegável que estamos abarrotados de bandas imersas nas águas dos rios da new-wave, num extenso lago de psicodelia (vulgo neo-psicodelia) e claro, no vasto oceano do pós-punk inglês/americano dos anos 80. E no meio de tanta água, a maioria se afoga e sai boiando por aí, até entrar em decomposição deixando rastro de odor por onde passam, fazendo participações pífias, esperando que a vida volte ao corpo, numa vã esperança de milagre.

No disco Passover, lançado em 2006, os Black Angels nadam em alguns momentos no oceano do pós-punk, dando braçadas largas num pântano lúgubre e obscuro de raízes que nos remetem ao proto-punk (os pais do punk - como o já citado Velvet Underground e também Stooges ou Doors), mas mergulham com estilo no lago fundo da psicodelia, onde muitos outros fluturam graciosamente nos anos 60. Ondas de distorção são potentes e altas, fazendo uma sincronia valorosa com as batidas bem encaixadas e deveras complexas. O vocal agoniza num timbre agudo e seco e rasteja sobre rastros de melancolia e desilusão geral que ficam explícitos em cada palavra cantada.

Semelhanças com outras bandas à parte, os Black Angels fazem um som denso e sórdido, uma trilha horripilante do fim do mundo. Imagine você andando friamente por uma rua deserta, cigarro na boca e o mundo inteiro caíndo atrás de você. Acrescente o som desses texanos à cena e você terá o acompanhamento perfeito: cigarro e boa música.

As faixas em vermelho são as recomendações do RockTown! Downloads.

Set List

1- Young Men Dead
2- The First Vietnamese War

3- The Sniper at the Gates of Heaven
4- The Prodigal Sun
5- Black Grease
6- Manipulation

7- Empire
8- Better Off Alone
9- Bloodhounds on My Trail
10- Call to Arms


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Shellac - Discografia

Recebi de forma indescritível a notícia de que o Shellac desembarcará no Brasil, no fim de março para fazer dois shows, um no dia 28 em Porto Alegre (Garagem Hermética) e no dia seguinte em São Paulo (Clash Club). Finalmente depois de muitos boatos que se arrastaram por anos, a banda liderada por Steve Albini se apresenta em território nacional. A espera foi uma tortura, ainda mais para muita gente que acompanha o trabalho da banda desde o início.

Para comemorar a tão esperada notícia, disponibilizo no RockTown! Downloads a discografia do Shellac, incluindo três EPs e cinco álbuns lançados de 1992 à 2007. É só baixar e se familiarizar com o som.

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>>> EPs
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The Rude Gesture: A Pictorial History - Lançado em 1993, foi um aquecimento para o álbum do ano posterior, o clássico e irrepreensível At Action Park.

1- The Guy Who Invented Fire
2- Rambler Song
3- Billiard Player Song



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Uranus - Ainda na fase pré-At Action Park, em 1993, o Shellac passa por sua melhor fase, ainda mais quando se tem duas faixas tão sólidas e tão abundantes em energia. A guitarra rasgada e distorcida é mais do que nunca a grande marca da banda.

1- Doris
2- Wingwalker



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The Bird Is the Most Popular Finger - Sim, mais um trabalho antes do clássico debute da banda. Foi lançado no mesmo ano que o primeiro álbum deles (1994) e mostra um amadurecimentos transbordante, que só poderia ter como consequência uma ótima estréia.

1- XVI
2- The Admiral



---------------------------------------------------------------------------------->>> ALBÚNS----------------------------------------------------------------------------------
At Action Park - Lançado em 1994, é o clássico tão anunciado pelos EPs acima. Pra ouvir de cabo a rabo, sem parar. É uma referência no modo experimental dentro do underground americano. A tradução do que é Shellac.

1- My Black Ass
2- Pull the Cup
3- The Admiral
4- Crow
5- Song of the Minerals
6- A Minute
7- The Idea of North
8- Dog and Pony Show
9- Boche's Dick
10- Il Porno Star



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The Futurist - Com sua textura minimalista, o experimentalismo do Shellac é ressaltado em relação às outras características. Com elementos espaciais que nos remetem à Odisséia no Espaço de Kubrick, existe um arsenal de riffs complexo e hipnotizante. É um trabalho extremamente calculado, seria algo como o "rock exato". As músicas não têm nome, o Shellac pega emprestada a nomeclatura da música clássica e divide o disco em cinco movimentos. Realmente uma sinfonia de rock com três integrantes.


1- Movement 1
2- Movement 2
3- Movement 3
4- Movement 4
5- Movement 5



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Terraform - Embora a banda não tenha modificado sua essência, ela se tornou um tanto mais racional e complexa no disco anterior. Já em Terraform, lançado em 1997, a banda é atraída pela linha mais agressiva do seu primeiro álbum, porém ainda exibe uma certa dificuldade em repetir a fluência das melodias. Mesmo assim não perde seu valor e sua contribuição na evolução infindável da banda.

1- Didn't We Deserve a Look at You the Way You Really Are
2- This Is a Picture
3- Disgrace
4- Mouthpiece
5- Canada
6- Rush Job
7- House Full of Garbage
8- Copper


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1000 Hurts - Em 2000 os fãs da banda tinham em mãos um novo disco. E os mais velhos sentiam as poderosas doses de distorção aliadas a um vocal visceral, ríspido e grosseiro de um Steve Albini mais violento que nunca. A produção está bem mais afiada que os trabalhos anteriores, o som está mais amplificado, mais disperso. Experimente ouvir a primeira faixa, Prayer To God, e veja como a banda trata o ódio, a vingança, o rancor. É Shellac em seu estado mais bruto.

1- Prayer to God
2- Squirrel Song
3- Mama Gina
4- QRJ
5- Ghosts
6- Song Against Itself
7- Canaveral
8- New Number Order
9- Shoe Song
10- Watch Song


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Excellent Italian Greyhound - O disco lançado em 2007 - após um longo hiato de sete anos - não decepcionou quem esperava a mesma banda de quase uma década atrás. O Shellac apresenta momentos brilhantes de velocidade de melodia, com incríveis trechos de guitarra que se alternam com o baixo saliente e entorpecente de Bob Weston, principalmente quando se trata da conexão com as batidas de Todd Trainer. A produção está melhor que nunca em termos de qualidade, mas a atmosfera suja do underground permanece. É o Shellac de volta, como se tivesse lançado um álbum em 2001, um ano após o 1000 Hurts.

1- The End of Radio
2- Steady as She Goes
3- Be Prepared
4- Elephant
5- Genuine Lulabelle
6- Kittypants
7- Boycott
8- Paco
9- Spoke

Bee Thousand - Guided by Voices

A banda do meu coração volta ao blog.

Talvez você não tenha ouvido falar sobre essa banda. Pode ter ouvido alguma coisa por aí, em algum lugar da noite, tocada por algum DJ sensato demais. Mas aviso que é difícil se deparar com o som deles pelas noites do rock alternativo. O Guided by Voices (GBV) nasceu em 1985 em Dayton, Ohio (EUA), graças as idéias malucas de um professor de primário que tinha realmente o dom de compôr: Bob Pollard tem mais de mil músicas devidamente registradas sob as leis de direitos autorais. E não se trata de algo automático e cansativo, Pollard realmente sabe jogar com as palavras. De dragões, ele passa por perseguições com helicópteros, desce até analisar a vida com precisão cirúrgica, cantando com sua voz característica, as aventuras e desventuras da vida, com certo humor cáustico em algumas horas e otimismo em outras. O som é extremamente autêntico no ponto de vista da qualidade. O GBV é a tradução do que é uma sonoridade lo-fi, que não se trata de charme, de uma textura pretenciosa em alguma má intenção. As primeiras gravações foram feitas de forma amadora, com uma aparência realmente tosca, mas que valeu pela originalidade, que logo foi conquistando fãs pelo underground dos EUA inteiro. Aos poucos foram lançando discos e mesmo sob a tutela de gravadoras, como a idolatrada Matador, a banda continuou demarcando territórios com sua rusticidade e identificação com a realidade da maioria das bandas: garagem como estúdio, equipamentos insuficientes em qualidade e instabilidade na manutenção de uma formação da banda com integrantes fixos, afinal, a banda teve mais de quarenta integrantes em seus dezenove anos de existência. Se você ouvir com atenção, notará uma agressividade tomada do The Who, com aquela explosão de acordes de guitarra e baixo e uma euforia magnética no vocal de Pollard. A banda também toma emprestada a estrutura pop extremamente sólida que o R.E.M desenvolveu. Toda a junção da energia do rock sobre o pop variado em delicadeza e êxtase, garante ao GBV destaque indiscutível.

Em Bee Thousand, lançado em 1994, a banda chegou a um status divino, começando a ser cultuada. As bandas começaram a declarar: "somos influenciados pelo Guided by Voices". Com todos os ruídos e efeitos inseridos de forma experimental, o GBV foi arrebanhando milhares de fãs que começavam a descobrir que poderiam gravar como eles gravaram e mesmo assim, poderiam angariar admiradores. Afinal, nos trabalhos da banda, o que importa realmente é análise fria dos elementos que compoem cada faixa, seja ela com dezoito segundos ou três minutos de duração. E realmente o disco está recheado de experimentos genuínos, com faixas que têm pouco mais que um minuto de duração. Mas se você acha que vai ouvir uma bagunça, uma compilação desordenada de uma mente maluca, tire o cavalo da chuva. Embora haja uma atmosfera de experiência, Pollard cria coesão justamente pelo fato de, em cada faixa, beber das suas influências e criar uma base para futuros trabalhos. O vocalista e compositor sabia o que estava fazendo.

'Hardcore UFOs' inicia o disco com uma sonoridade complexa, psicodélica em sua base e cantada um pouco fora de sincronia. E bom citar que a banda estava no controle das coisas e tudo o que eles fizeram nesse disco, foi feito de forma proposital. Muita banda se aproveitou positivamente dessas misturas do GBV. 'Tractor Rape Chain' é um rock extremamente fácil de cantar, incendiado por uma guitarra perfeitamente calibrada para a estética do lo-fi. O refrão desaba em nossas mentes de tão acessível que é. Sem contar o nome da faixa que no mínimo é bizarra (nomes bizarros não faltam na extensa cartilha do GBV). 'The Goldheart Mountaintop Queen Directory' é suave, com linha de arranjo sombria e bem construída, mas que degenera aos poucos com os vocais desalinhados e pasmem, uma flauta doce totalmente desafinada e tocada como se uma criança de 5 anos a fizesse. Se você gostou do arranjo e quer ouví-lo com qualidade, vale a pena baixar o So Divided do Trail of Dead (disponível aqui no blog), onde eles fazem o cover dessa canção, com sonoridade bem mais limpa e organizada. 'Echos Myron' é mais extrovertida, com compasso de bateria bem marcado, e um vocal bem mais solto, com escaladas de guitarra muito bem encaixadas. 'Gold Star for Robot Boy' tem seu destaque pela questão de influência. A linha de guitarra ao fundo se equipara ao shoegaze, mas a canção não desce aos abismos de melancolia, mantendo a agressividade inofensiva da faixa anterior. 'I am a Scientist' é a estrela do disco, a faixa símbolo. Tem um riff magnífico e soturno, inesquecível. Uma letra que expoe uma paralelo entre profissões e comportamento, muito interessante. E claro, não poderia deixar de citar que nessa canção, a frase mais incrível do rock foi cantada:

I am a lost soul, I shoot myself with rock'n'roll

É um resumo do que sou, do que você é. Tudo isso com o arranjo tristonho porém encantador que alterna entre um clima confuso de sobreposições de notas e o riff acima citado. É genial.

O Bee Thousand é o grande trabalho do GBV. É o guia para o novo ouvinte. Se você quer conhecer a essência da banda, baixe esse disco, reserve quarenta minutos de seu tempo e ouça-o sem parar. Se você sentir vontade de pegar um gravador ou um microfone de computador pra fazer suas músicas, não estranhe. É assim que as coisas devem ser quando GBV toca seu som.

Set List

1- Hardcore Ufos
2- Buzzards and Dreadful Crows
3- Tractor Rape Chain
4- The Goldheart Mountaintop Queen Directory
5- Hot Freaks
6- Smothered in Hugs
7- Yours to Keep
8- Echos Myron
9- Gold Star for Robot Boy
10- Awful Bliss
11- Mincer Ray
12- A Big Fan of the Pigpen
13- Queen of Cans and Jars
14- Her Psychology Today
15- Kicker of Elves
16- Ester's Day
17- Demons Are Real
18- I Am a Scientist
19- Peep-Hole
20- You're Not an Airplane

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The Dark Side of The Moon - Pink Floyd

Eu sempre me senti receoso em escrever sobre algo tão coberto de mistérios, mitos, lendas e acima de tudo genialidade incomparável. É mais ou menos como contemplar seu ídolo cara a cara e falar sobre o que ele significa pra você. É como tocar em algo sagrado e amaldiçoado ao mesmo tempo. Eu realmente não sei como escrever algo que expresse a minha (ou a sua) reverência em relação à essa obra. Resumindo: tudo que for escrito ou dito sobre o "disco do prisma" não passará de clichê, afinal, muito já se disse. Preferi escrever algo do tipo The Dark Side of the Moon e eu.

Esse tempo que me afastei do blog (devido a um problema de saúde do meu pai, eu me via refletindo) olhando para o teto, e ouvindo as faixas tão caprichosas desse álbum. Nunca um disco fez tanto por mim. Ele sempre significou muito, mas nessa última semana, ele me fez dormir, me fez pensar e até chorar. Se olharmos para a obra como um todo (e não há como vislumbrá-la de forma diferente) notaremos que é um álbum conceitual. Um álbum é conceitual quando une um objetivo comum em todas as músicas, quando todos os caminhos levam para um mesmo significado. Assim é o Dark Side of the Moon do Pink Floyd. Ele canta, ele soa os sentimentos e instintos humanos. O amor, a raiva, o ódio, os instintos de paz, de guerra, as divisões entre seres humanos, a pobreza, o consumismo enfim, tudo está devidamente explorado nesse trabalho lançado no ano de 1973. E nessa semana, muitos dos meu sentimentos conflitaram pois quando você passa por um momento onde quase presencia a morte de seu pai, tudo bagunça, tudo fica nublado e enquanto você tenta afastar as neblinas, se flagra perdido em tantas considerações e dúvidas. Quanto mais você força a vista para ver alguma linha horizontal que te guie, mas você se sente cego. Nessa semana eu vi que o tempo passou rápido, lembro que comentava com meu pai sobre seus cabelos brancos, lembrando que esse ano ele faz cinqüenta anos. Lembrei a ele que um dos meus irmãos já está com vinte anos e o mais novo, puta merda, faz quinze em outubro. O tempo passou, e nós nem vimos. E como diz a faixa 'Time', "você é jovem e a vida é longa e tem tempo para matar hoje, até que um dia você percebe que dez anos se passaram". Quando ouvi essa canção na primeira oportunidade que tive para dormir - depois de quase dois dias sem descansar - fiquei "matutando" sobre a arrogância da juventude em achar que o amanhã sempre virá, e o pior, que ele vai demorar a chegar. E quando notamos, já temos nossas contas para pagar, família, casa, carro (ou nem isso), enfim, responsabilidades. E o dinheiro, o vilão de todos os tempos, se torna obcessão, uma necessidade cega da gente, quando nos perdemos nas ansiedades que as pressões diárias nos injetam. Meu pai sofreu um derrame exatamente por isso: por se preocupar demais. Na canção 'Money', moedas e cédulas assumem papel de protagonista e de forma escancarada, seus valores são analisados sob uma linha de arranjos impecável. No começo, arranjamos um emprego para pagar uma faculdade ou para nos manter abastecidos para sair, pagar contas, mas sempre no começo de nossas carreiras, só queremos o necessário para não afogarmos em dívidas. E quando olhamos, estamos pedindo aumento, galgando degraus em empresas, disputando cargos, batendo e levando porrada, tudo por um motivo: mais dinheiro. Não importa o quanto ganhemos, queremos mais, é a nossa natureza irrevogável. Essa canção fala exatamente sobre o efeito do dinheiro em nossas cabeças, o quanto nos tornamos egoístas, materialistas e o caralho a quatro:

Money, get away
Get a good job with more pay and you're okay
Money, it's a gas
Grab that cash with both hands and make a stash
New car, caviar, four star daydream
Think I'll buy me a football team
Como se meus pensamentos seguindo sincronizados com a seqüência do disco, pensei sobre a briga que tive com minha irmã, sobre a relação conturbada com meu irmão (só pra constar, tenho três irmãos), entre outras divisões em casa (o fato de eu ser a ovelha negra da família). E nessa linha, a belíssima 'Us and Them' aborda as eterna tendência de divisão do homem, e o quanto isso agrava para que a humanidade viva uma ilusória 'evolução'. Temos os mesmos instintos de briga, conflitos e desunião que os nossos ancestrais mais antigos das cavernas. E nunca evoluiremos. Afinal, somos apenas pessoas ordinárias.

Black and blue
And who knows which is which and who is who
Up and down
And in the end it's only round and round... and round


'Brain Damage' me sugeriu por alguns minutos uma fulga de tudo isso. Sair, voar para um lugar isolado de tudo isso. Que tal a Lua? Afinal, nessa faixa, sempre quando um momento de desespero é mencionado, sempre o lado escuro da Lua é citado, como um abrigo:

And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forebodings too
I'll see you on the dark side of the moon.


'Eclipse' finaliza o álbum citando as ações do homem, fazendo um paralelo final com a linha de pensamento bíblico e filosófico do rei Salomão que dizia no livro de Eclesiastes: "atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão". O Pink Floyd simplifica esse pensamento com a sua visão da humanidade: "Tudo o que é agora, tudo o que já foi, tudo o que já vem e tudo debaixo do sol está sintonizado, mas o sol é eclipsado pela lua". O eclipse é o lado negativo do homem em todas as suas atitudes. Simples? E quem disse que eles queriam mistificar alguma coisa? O The Dark Side of the Moon é simples e sem mistérios. Li numa matéria sobre o disco, que Roger Waters e David Gilmour debochavam dos fãs que enviavam cartas dando suas interpretações complexas para as músicas, quando o significado delas é aberto e sem duplo sentido. As pessoas pensam: "porra, o Pink Floyd é genial! deve ter algum significado por trás disso tudo!". E não é que o disco atenuou outra tendência do homem? A de complicar as coisas simples.

Eu poderia citar as inovações tecnológicas que esse álbum proporcionou, ou citar a mentira da sincronia com o filme Mágico de Oz (mito que os caras do Pink Floyd ridicularizam) ou falar sobre os êxitos comerciais do disco pelo mundo inteiro. Tem muita coisa pra se falar, mas como eu já disse, tudo seria um clichê que você já leu em outro site ou blog. Escrevi um relato verdadeiro de como o Dark Side of the Moon pode fazer parte da vida de uma pessoa, nesse caso, o Felipe Pipoko. Ele tem muitos atrativos, mas o maior sem dúvidas é o modo como eles tocam nos lados mais escuros do ser humano. O disco também poderia ser chamado de The Dark Side of the Man, e mesmo assim manteria a concepção da obra.

Set List

1- Speak to Me/Breathe
2- On the Run
3- Time
4- The Great Gig in the Sky
5- Money
6- Us and Them
7- Any Colour You Like
8- Brain Damage
9- Eclipse


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RockTown! Introduces La Noche Cool - Vários

Vocês nunca viram um anúncio aqui no blog, mas sempre deixei aberto o espaço para amigos que inovem em algo e queiram espalhar essa inovação. Muita gente que é de São Paulo e que costuma baixar sons diversos aqui no blog, vai concordar que a noite de Sampa anda desgastada por tocar sempre o mesmo hype, as mesmas bandas, traduzindo: indo numa onda longa, enjoativa e sem perspectiva. Minha intenção nesse blog sempre foi e sempre será abrir os olhos de quem anda meio cego nesse mundo maluco e nebuloso do rock, proporcionando discos incríveis de artistas incríveis. Claro que tem gente que já enxerga bem e se delicia com os discos aqui disponíveis. E minha intenção nesse anúncio é abrir os olhos do pessoal para a questão da noite. Muita gente aparece em bares e clubes manjados, por não ter opções ou por ter preguiça de buscar outro lugar. Alguns lugares pecam na discotecagem, lugares estes onde a gente sabe quando tal música vai tocar ou qual a seqüencia das músicas. Duvido que você que costuma sair, nunca presenciou um momento chato desses.

O La Noche Cool tem uma proposta diferente, unindo nomes consagrados do rock que tanto amamos, mas também mescla ritmos pouco explorados pelos DJs. Lá você ouvirá coisas que nunca ouviu numa pista, conhecerá muita coisa fina, e também lembrará de muita coisa que você ouviu aqui no RockTown! Downloads. Em que lugar você ouviu Serge Gainsbourg? A psicodelia francesa misturada ao apelo sexual, às bebedeiras e ao modo cafajeste de vida. Ou quem hoje em dia toca Roxy Music na noite? Tão dançante, mas tão esquecido. São raros os momentos com a banda de Brian Ferry. E o que dizer de Curtis Mayfield e seu funk-soul requintado e elegante? E não há como ignorar o Silver Apples, que estava anos à frente nos anos 60 e 70, misturando uma rica psicodelia encrustada de elementos eletrônicos num revestimento minimalista de prender a atenção de qualquer um. Isso é um pouco do que se pode ouvir nessa nova festa da noite paulistana. E para você conferir, o RockTown! compilou uma coletânea especial, o RockTown! Introduces La Noche Cool para apresentar um pouco da diversidade sonora da festa.

Set List1- You and I - Silver Apples
2- L'Hotel Particulier - Serge Gainsbourg
3- All Along The Watchtower - Bob Dylan
4- Love Is The Drug - Roxy Music
5- I Hope That I Don't Fall In Love with You - Tom Waits
6- Thieves Like Us - New Order
7- I'm Your Pusher Man - Curtis Mayfield
8- The Ship Song - Nick Cave & The Bad Seeds
9- Flower Girl From Bordeaux - Esquivel
10- Quoi - Jane Birkin
11- Summer Wine (with Nancy Sinatra) - Lee Hazlewood
12- Radio Attack - Prefuse 73
13- Souvenirs - Architecture in Helsinki

Clique na imagem abaixo para ver os detalhes no release da festa.
Caso deseje o flyer para desconto, mande um scrap ou comente nesse post. Flyers disponíveis até quarta-feira, dia 13 de fevereiro .

A Tábua de Esmeralda - Jorge Ben

No último dia 25 fui ao show do Jorge Ben (volto a citar um bom foda-se para o sufixo Jor), e ao fim da apresentação, fui invadido por um desejo de que todos pudessem gostar do trabalho dele. A energia que ele emana com sua voz, com seus movimentos ou ao interagir com seu público, inspira qualquer um e poe no seu devido lugar qualquer zé mané que se acha algo no mainstream nacional.

No post anterior, eu já havia escrito de forma sucinta quem é Jorge Ben e o seu diferencial em relação aos seus conteporâneos. Ele conseguiu unir toda a mística que o Rio de Janeiro comporta em seus limites e os uniu, fazendo canções memoráveis, descontraídas e mais do que isso, canções que conseguiram traduzir a essência de um povo. Poucos são os músicos que conseguem se identificar tanto com um lugar. Ao ouvir o som desse carioca nascido em 1942, chega à minha mente imagens do Rio, da Lapa e suas ruas complexas, das linhas dos trens no Méier, da vista do Maracanã, da favela da Mangueira e também das ruas aparentemente pacatas do Jacarézinho. Quando perguntam se no tempo que fiquei no Rio eu fiquei assustado, respondo sem hesitar que foram ótimos momentos da minha vida, ainda mais quando esses bons momentos se unem perfeitamente com as canções de Jorge. O álbum A Tábua de Esmeralda, lançado em 1974, é um concentrado de simplicidade e despojamento de qualquer pretensão em fazer um trabalho para atingir sucesso comercial ou algo similar. É um canto cego dirigido para o povo e seus costumes e que por sua qualidade incontestável, foi sucesso por natural consequência.

'Os Alquimistas estão Chegando' repousa em deliciosos acordes de violão, de ataques curtos enquanto Jorge Ben usa fraseados longos para descrever o comportamento e a essência dos alquimistas. A forma dessa descrição é cativante pelo jeito desleixado com que ele trata os versos, como se fosse o senhor desses versos. Em 'O Homem da Gravata Florida' ele mantém essa fórmula, mostrando domínio completo sobre sua arte, um controle minuscioso de cada detalhe, detalhes da gravata, das cores. Não há organização determinada, é uma livre canção onde tudo gira em nossa volta, em plena harmonia musical, com arranjos minimalistas tendo um relaxante violão liderando a deliciosa levada da faixa. 'Menina Mulher da Pele Preta' começa com diálogo descontraído seguido por um samba regado de toques de cuíca ao fundo, transmitindo um prazer inigualável, principalmente quando você fecha os olhos e se deixa levar no rico compasso da canção. Não se surpreenda se você se vir simulando um pandeiro com as mãos. É o encanto do verdadeiro samba. 'Eu Vou Torcer' é um Jorge Ben otimista, que usa de seu vigor de torcedor do Flamengo para torcer por elementos que fazem parte de nosso cotidiano, sejam elas concretas - moças bonitas ou pelas coisas úteis que se podem comprar com dez cruzeiros - ou abstratas - pelas estações ou pela paz. É outra canção de compasso marcado que com sua leveza melódica se destaca graças à união com a leveza da poesia de Jorge Ben. 'O Namorado da Viúva' é uma bossa-nova sob a ótica dele, sob a ótica cotidiana, menos sofisticada, mais acessível, mais povão. Uma bossa de braços abertos.

Embora eu costume dizer que África Brasil seja o melhor disco dele, o A Tábua de Esmeralda é quando Jorge Ben demonstra que está nos pés de um monte de evolução. Esse álbum realmente apresenta o começo da inspiração infindável desse grande mestre da música brasileira.

*Sugestão de Octávio

Set List

1- Os Alquimistas Estão Chegando
2- O Homem da Gravata Florida
3- Errare Humanum Est
4- Menina Mulher da Pele Preta
5- Eu Vou Torcer
6- Magnólia
7- Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar
8- Zumbi
9- Brother
10- O Namorado da Viúva
11- Hermes Tri
12- Cinco Minutos

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