Mclusky do Dallas - Mclusky

Donos de um rock que impoe respeito pelo seu peso, pela confusão de seus ruídos e também pelas pessoas que apostaram neles, o Mclusky é uma banda formada no País de Gales, especificamente em Cadiff, no ano de 1998. Letras irônicas, cobertas de sarcasmo cáustico e deboche visceral se unem para complementar o som - que você pode ter ouvido algumas vezes - mas que se diferencia pela junção de tanta sujeira e uma despretensão invejável. A sonoridade, explosiva e densa, soa desleixada. De forma intencional ou não, a verdade é que eles relampejam em meio à riffs que trepam em sua memória e fazem você assoviar o dia inteiro as canções carregadas de batidas rápidas e desconcertantes - evocando um veia punk - que são bem acompanhadas por uma linha de baixo extremamente excêntrica e maravilhosamente desordenada. A voz de Andy Falkous é de uma variação interessante: rasteja em alguns pontos de calma, mas sabe que está ali mesmo para estourar as cordas vocais em cantos grotescos. E a guitarra? Misture os acordes destemidos do Sonic Youth com a dissonância magnífica do Pavement e você terá uma idéia do que consiste a sonoridade que pesa sobre a atmosfera de Mclusky Do Dallas, disco que foi lançado em 2003 e com certeza trata-se do maior êxito artístico da banda.

O disco foi produzido pela mente genial e perturbada de Steve Albini, o grande nome do underground americano (sua obra está maciçamente exposta em nosso blog). Supondo que você não conheça o homem em questão e pergunte: o que significa ter Steve Albini como produtor? Bem, como qualquer produtor, ele trabalha com bandas ou cantores que exibem potencial de crescimento. Uma coisa é pegar cinco caras e juntá-los ensinando-os coreografias e meter gel na cabeça deles, fazendo-os dublar canções em meio a playbacks. Outra coisa é você detectar talento e elementos que identificam um artista ou banda com uma fatia tão pequena e complicada que é o indie-rock ou para quem ainda não entendeu, o rock alternativo (que não passa pelas rádios em meio aos jabas de gravadoras). Criar marionetes comerciais para o povão é fácil. Agora produzir algo para um público tão exigente, como é o caso dos fãs do underground, é outra coisa. E Albini é especialista em fuçar nas propriedades de uma banda, moldando-a com placas de imundícia sonora e envolvendo-a com metros e metros de coragem, afinal, é preciso coragem para unir tantos elementos descartados pela grande maioria em nossa sociedade. Albini não gostava de muitas bandas que produziu, como é o caso dos Pixies (Surfer Rosa) ou Nirvana (In Uthero), esconjurando-os de forma ríspida e cheia de rejeição. Opiniões à parte, Albini gosta (e muito) do Mclusky. E se compararmos o disco em destaque com o seu antecessor, o ótimo My Pain and Sadness Is More Sad and Painful Than Yours, notamos pequenas alterações, pequenas mesmo. Por exemplo: como não identificar o dedo de Albini na nona faixa do disco, 'Clique Application Form', quando o Mclusky assume as propriedades matemáticas do Shellac e se encontra em um minimalismo magistral? A grande diferença do disco não é o grau de intensidade das músicas, se está menor ou maior, e sim é o toque do produtor. 'To Hell With Good Intentions' é debochada e rasgada, com ótima linha de acordes de guitarra e um compasso bem marcado da bateria atravessa a maioria da canção, exceto os momentos de êxtase do refrão. Vai ser difícil você não cantarolar o trecho que se repete:

My love is bigger than your love
Sing it


'Fuck this Band' é como uma canção dos Pixies que não estoura em guitarras. O baixo é sóbrio e soberanos sobre os arranjos. É o momento mais pacífico em meio a tantos conflitos - provocações e gritarias - que o disco proporciona. 'What We've Learned' é repleto de acordes agudos bem tirados durante a evolução da canção e um riff longo que desemboca num mar de ruídos estridentes. 'No New Wave No Fun' é a grande prova de que o disco pode oferecer injeções de ânimo graças à performance invejável de Falkous e seu vocal escandaloso e furioso. A harmonia é ditada pela bateria, que acompanha acordes de guitarra que misturam o rockabilly e o surf-rock dos anos 60. Mas a faixa definitivamente não é comportada como as influências propostas. E a faixa de abertura é a carta na manga de um jogador precipitado. Sabe quando temos uma arma secreta e a usamos logo no começo do jogo? O Mclusky ignora o fator surpresa e escancara a incandescente e indecente 'Lightsabre Cocksucking Blues'. O vocal é o destaque aqui também, sempre acelerado e aflito, mas a guitarra tem seu trunfo com as diversas paradas bruscas que entregam o fôlego que o ouvinte precisa para acompanhar tamanho frenesi musical. É a entrada perfeita para um disco tão intocável.

Posso ter exaltado a figura do produtor, afinal, é como no futebol: técnico bom é sinal de time bom. Mas Albini nem estaria nessa empreitada se não tivesse reconhecido a capacidade e a qualidade da banda, que mesmo em meio à negligência de seus integrantes quanto às aparências sonoras, soa ajustada como uma banda respeitável. Afinal, quem disse que não são?

Set List

1- Lightsabre Cocksucking Blues
2- No New Wave No Fun
3- Collagen Rock
4- What We've Learned
5- Day of the Deadringers
6- Dethink to Survive
7- Fuck This Band
8- To Hell With Good Intentions
9- Clique Application Form
10- The World Loves Us and Is Our Bitch
11- Alan Is a Cowboy Killer
12- Gareth Brown Says
13- Chases
14- Whoyouknow

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1 Opinião(ões) de nosso(s) leitor(es):

A impressão é que eu estou ouvindo shellac. Gostei, porrada, barulho, uma pitada de pixies.