Magic - Bruce Springsteen

Mentalize as personalidades do rock que envelheceram e perderam o feeling. Vieram muitas à sua cabeça? Claro que as faces que surgirão nas cabeças dos vários leitores serão bem controversas, afinal, pra uns o Eric Clapton ficou uma porcaria, pra outros não. Mas não vale traçar uma opinião só porque a crítica exaltou um trabalho. Tem muita gente que não curte ouvir Paul MacCartney mas diz que ele continua bom, só porque a Rolling Stone escreveu algo de positivo. Aqui na minha cabeça apareceram várias figuras, como os Rolling Stones, o último disco foi uma porcaria, resumindo: eles não produzem como antes, isso é fato. Embora David Bowie seja um deus para mim, ele não tem mais a explosão de vida da juventude, das drogas e da intensidade das novas experiências. Trocando em miúdos: ele também tá por fora. Ponto. Agora o que mais me deixa envergonhado (sim, vergonha por eles, pelo ridículo que passam) é quando grandes nomes tentam (em vão) se ajustar aos moldes atuais, se aventurando em epopéias furadas de indie-rock, eletro-sei-lá-o-quê e new-lá-vem-merda. Sempre achei que o Bowie devia tocar seu glam-rock, lambuzado em experiências de disco. Era isso que ele sabia fazer. Pra quê mudar? Pra vender mais? Os Stones mantiveram a maioria de suas características no último disco, mas o desgaste da imagem deles, dos trilhões de singles e álbuns, se misturou a falta de inspiração. Poderia dar muitos exemplos, mas vi que prolonguei esse artigo mais do que deveria.

E o que esse primeiro parágrafo tem a ver com o bom e velho Bruce Springsteen? Posso lhes escrever: Bruce Springsteen voltou a velha forma que o consagrou nas décadas de 70 e 80. Ele pode ter tropeçado em pedras de tendências nos anos 90, lançando discos no máximo mornos e cometendo os erros dos artistas acima citados, mas desde 2002 o representante das massas sofridas acertou na dose, e com ingredientes antigos, vem lançando trabalhos de respeito, que faz a nossa geração ter uma idéia do que era ouvir algo novo do cantor e compositor americano. Quem curte Springsteen e assistiu Geração Prozac (Prozac Nation), viu a bela Christina Ricci no papel da jovem estudante de jornalismo Elizabeth Wurtzel escrevendo sobre um novo trabalho do cantor, se não me engano era o álbum Tunnel of Love (pelo pôster que ela tem no quarto - erro de cronologia, pois o disco foi lançado em 1987 e a história se passa em 1985), e muitos pensaram: caramba, eu queria viver naquela época, ou melhor, queria ser um estudante naquela época. Apreciar um trabalho novinho em folha e saber que ali nascia um clássico.

Em 2007 nasceu um clássico. Magic é o mais vigoroso e original trabalho de Bruce Springsteen desde o Tunnel of Love. Não, a comparação não é devida ao filme, e sim pelo fato de que depois desse álbum (lançado em 87), o cantor lançou um outro em 1992 que já era fraquinho para o poder de criação e execução do artista. Nossa geração é brindada por um trabalho que evoca as grandes características dos velhos tempos: letras políticas bem elaboradas e que não cansam os ouvidos com as mesmas premissas idiotas e desgastadas e o principal (afinal, nem todo mundo liga para as letras): o velho rock'n'roll que contagiava públicos pelo mundo inteiro. Muita gente falou e eu engrosso o coro: Bruce Springsteen voltou a tocar rock. E grande prova disso é a primeira faixa, 'Radio Nowhere' que acerta na mosca quando o assunto é explosão de guitarras num equilíbrio perfeito que enaltece as raízes do cantor, ou seja, as levadas dos anos 80 que embelezavam as ondas radiofônicas pelo mundo. E aí está o ponto: Springsteen conseguiu reconstituir o velho som, aquilo que ele sabe fazer e que, para espanto de muitos, não está ultrapassado. 'You'll be Comin Down' continua com a deliciosa levada da primeira faixa e só comprova a autenticidade do trabalho de Springsteen. Feche os olhos e não vai ser difícil se imaginar nos anos 80. Não poderia deixar de creditar à E Street Band o trabalho genial dos arranjos. 'You Own Worst Enemy' é uma canção mais amena e que não encontraria dificuldades em figurar entre as faixas de Born to Run de 1975. 'Magic' é uma pausa na euforia, para rememorar a habilidade inconfundível de Springsteen em compôr letras e atribuir sentido à elas:

I got a shiny saw blade
All I need's a volunteer
I'll cut you in half
While your smilin' at me
And the freedom that your songs
Drifting like a ghost amongst the trees
This is what we'll be
This is what we'll be


Nessa canção, toda a vida é comparada a procedimentos de mágica. Cortar um voluntário no meio, cartas na manga, coelho no chapéu, moedas sumindo, tudo tem um paralelo com nosso cotidiano. Em 'Terry's Song', Springsteen se utiliza da estética do folk-blues para homenagear um amigo, Terry Magovern, falecido no ano do lançamento do disco. Ótimo desfecho para um trabalho incrível.

Magic é mágico. A magia de transportar épocas, de mobilizar memórias e transformá-las em momentos presentes. Esse álbum é uma chama de esperança para os saudosistas que acreditam que aquele tempo bom não volta mais. Viva Bruce Springsteen!

Set List

1- Radio Nowhere
2- You'll Be Comin' Down
3- Livin' in the Future
4- Your Own Worst Enemy
5- Gypsy Biker
6- Girls in Their Summer Clothes
7- I'll Work for Your Love
8- Magic
9- Last to Die
10- Long Walk Home
11- Devil's Arcade
12- Terry's Song

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4 Opinião(ões) de nosso(s) leitor(es):

kara, não conhecia seu blog, mas achei sensacional!
indie rock eh o que há...
hoje em dia, falta informação sobre bandas novas/diferentes, e teu blog nos ajuda muito...
vou frequentar sempre..
vlw !

gostei do blog!
me adicione aos links por favor
http://suitzfree.blogspot.com
eu vou adicionar o seu

Então neo-vizinho não brigaremos por causa do Bowie, (por enquanto) hehehehe!!!! Mas concordo inteiramente que "The Boss' fez muita falta mesmo.
Só uma coisa, depois dessa fase meio 'perdida' dos anos 90, Springsteen começou os 2000 em total sintonia com o seu tempo ("The Rising" e "Devils & Dust")sem perder a 'virilidade' rocker! O que aliás eu acho foi o caminho que Bowie escolheu, pronto acabei falando! hehehehe
Saudações caninas!

é isso, não só disponibiliza para baixar, como convence muito bem o ouvinte de que ele deve realmente ouvir o album. parabéns