The Dark Side of The Moon - Pink Floyd

Eu sempre me senti receoso em escrever sobre algo tão coberto de mistérios, mitos, lendas e acima de tudo genialidade incomparável. É mais ou menos como contemplar seu ídolo cara a cara e falar sobre o que ele significa pra você. É como tocar em algo sagrado e amaldiçoado ao mesmo tempo. Eu realmente não sei como escrever algo que expresse a minha (ou a sua) reverência em relação à essa obra. Resumindo: tudo que for escrito ou dito sobre o "disco do prisma" não passará de clichê, afinal, muito já se disse. Preferi escrever algo do tipo The Dark Side of the Moon e eu.

Esse tempo que me afastei do blog (devido a um problema de saúde do meu pai, eu me via refletindo) olhando para o teto, e ouvindo as faixas tão caprichosas desse álbum. Nunca um disco fez tanto por mim. Ele sempre significou muito, mas nessa última semana, ele me fez dormir, me fez pensar e até chorar. Se olharmos para a obra como um todo (e não há como vislumbrá-la de forma diferente) notaremos que é um álbum conceitual. Um álbum é conceitual quando une um objetivo comum em todas as músicas, quando todos os caminhos levam para um mesmo significado. Assim é o Dark Side of the Moon do Pink Floyd. Ele canta, ele soa os sentimentos e instintos humanos. O amor, a raiva, o ódio, os instintos de paz, de guerra, as divisões entre seres humanos, a pobreza, o consumismo enfim, tudo está devidamente explorado nesse trabalho lançado no ano de 1973. E nessa semana, muitos dos meu sentimentos conflitaram pois quando você passa por um momento onde quase presencia a morte de seu pai, tudo bagunça, tudo fica nublado e enquanto você tenta afastar as neblinas, se flagra perdido em tantas considerações e dúvidas. Quanto mais você força a vista para ver alguma linha horizontal que te guie, mas você se sente cego. Nessa semana eu vi que o tempo passou rápido, lembro que comentava com meu pai sobre seus cabelos brancos, lembrando que esse ano ele faz cinqüenta anos. Lembrei a ele que um dos meus irmãos já está com vinte anos e o mais novo, puta merda, faz quinze em outubro. O tempo passou, e nós nem vimos. E como diz a faixa 'Time', "você é jovem e a vida é longa e tem tempo para matar hoje, até que um dia você percebe que dez anos se passaram". Quando ouvi essa canção na primeira oportunidade que tive para dormir - depois de quase dois dias sem descansar - fiquei "matutando" sobre a arrogância da juventude em achar que o amanhã sempre virá, e o pior, que ele vai demorar a chegar. E quando notamos, já temos nossas contas para pagar, família, casa, carro (ou nem isso), enfim, responsabilidades. E o dinheiro, o vilão de todos os tempos, se torna obcessão, uma necessidade cega da gente, quando nos perdemos nas ansiedades que as pressões diárias nos injetam. Meu pai sofreu um derrame exatamente por isso: por se preocupar demais. Na canção 'Money', moedas e cédulas assumem papel de protagonista e de forma escancarada, seus valores são analisados sob uma linha de arranjos impecável. No começo, arranjamos um emprego para pagar uma faculdade ou para nos manter abastecidos para sair, pagar contas, mas sempre no começo de nossas carreiras, só queremos o necessário para não afogarmos em dívidas. E quando olhamos, estamos pedindo aumento, galgando degraus em empresas, disputando cargos, batendo e levando porrada, tudo por um motivo: mais dinheiro. Não importa o quanto ganhemos, queremos mais, é a nossa natureza irrevogável. Essa canção fala exatamente sobre o efeito do dinheiro em nossas cabeças, o quanto nos tornamos egoístas, materialistas e o caralho a quatro:

Money, get away
Get a good job with more pay and you're okay
Money, it's a gas
Grab that cash with both hands and make a stash
New car, caviar, four star daydream
Think I'll buy me a football team
Como se meus pensamentos seguindo sincronizados com a seqüência do disco, pensei sobre a briga que tive com minha irmã, sobre a relação conturbada com meu irmão (só pra constar, tenho três irmãos), entre outras divisões em casa (o fato de eu ser a ovelha negra da família). E nessa linha, a belíssima 'Us and Them' aborda as eterna tendência de divisão do homem, e o quanto isso agrava para que a humanidade viva uma ilusória 'evolução'. Temos os mesmos instintos de briga, conflitos e desunião que os nossos ancestrais mais antigos das cavernas. E nunca evoluiremos. Afinal, somos apenas pessoas ordinárias.

Black and blue
And who knows which is which and who is who
Up and down
And in the end it's only round and round... and round


'Brain Damage' me sugeriu por alguns minutos uma fulga de tudo isso. Sair, voar para um lugar isolado de tudo isso. Que tal a Lua? Afinal, nessa faixa, sempre quando um momento de desespero é mencionado, sempre o lado escuro da Lua é citado, como um abrigo:

And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forebodings too
I'll see you on the dark side of the moon.


'Eclipse' finaliza o álbum citando as ações do homem, fazendo um paralelo final com a linha de pensamento bíblico e filosófico do rei Salomão que dizia no livro de Eclesiastes: "atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão". O Pink Floyd simplifica esse pensamento com a sua visão da humanidade: "Tudo o que é agora, tudo o que já foi, tudo o que já vem e tudo debaixo do sol está sintonizado, mas o sol é eclipsado pela lua". O eclipse é o lado negativo do homem em todas as suas atitudes. Simples? E quem disse que eles queriam mistificar alguma coisa? O The Dark Side of the Moon é simples e sem mistérios. Li numa matéria sobre o disco, que Roger Waters e David Gilmour debochavam dos fãs que enviavam cartas dando suas interpretações complexas para as músicas, quando o significado delas é aberto e sem duplo sentido. As pessoas pensam: "porra, o Pink Floyd é genial! deve ter algum significado por trás disso tudo!". E não é que o disco atenuou outra tendência do homem? A de complicar as coisas simples.

Eu poderia citar as inovações tecnológicas que esse álbum proporcionou, ou citar a mentira da sincronia com o filme Mágico de Oz (mito que os caras do Pink Floyd ridicularizam) ou falar sobre os êxitos comerciais do disco pelo mundo inteiro. Tem muita coisa pra se falar, mas como eu já disse, tudo seria um clichê que você já leu em outro site ou blog. Escrevi um relato verdadeiro de como o Dark Side of the Moon pode fazer parte da vida de uma pessoa, nesse caso, o Felipe Pipoko. Ele tem muitos atrativos, mas o maior sem dúvidas é o modo como eles tocam nos lados mais escuros do ser humano. O disco também poderia ser chamado de The Dark Side of the Man, e mesmo assim manteria a concepção da obra.

Set List

1- Speak to Me/Breathe
2- On the Run
3- Time
4- The Great Gig in the Sky
5- Money
6- Us and Them
7- Any Colour You Like
8- Brain Damage
9- Eclipse


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21 Opinião(ões) de nosso(s) leitor(es):

The dark side of the man é quase um trocadilho.

Pra mim, a maior obra do Rock, uma verdadeira obra de arte moderna. Cada audição é diferente, uma experiência além da audição. Presenciar Roger Waters reproduzindo, ao vivo, em um palco gigante, com efeitos incríveis, foi algo completamente indescritível. Pra se ouvir sóbrio, ébrio, chapado, feliz, triste, acordado, meio dormindo, fazendo sexo. E não adianta, se ouvir a batida do coração no início de Speak to Me/Breathe, deve-se ouví-lo até as batidas finais em Eclipse, impossível ouvir pela metade.
Aprecie sem moderação.

ah, e melhoras pra o seu pai aí, saúde.
abraço

Felipe, falando em pai... (espero que o seu esteja melhor!) o meu pai tem esse álbum em vinil e eu nunca ouvi. Sempre resisti ao Pink Floyd e afins mas nos últimos anos tenho pensado "um dia vou escutar" e agora com a sua resenha deu mais vontade, hehe.
Também escrevo, e também deixo muita coisa pessoal nos meus textos... por mais que "não interesse" pra quem só quer ler uma resenha, acaba funcionando como metáfora falar das nossas vidas!
Sempre estou aqui no blog baixando alguma coisa e lendo as suas resenhas. Muito bacana a sua iniciativa com este blog!

Valeu pelos comentários e desejos de melhoras!

Julie, me manda um link onde eu possa ler seus textos!

Abraço a todos!

Este comentário foi removido pelo autor.
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Sumplesmente maravilhoso o seu depoimento sobre essa magnífica obra musical. Como sempre, um material de primeira com um texto de primeira.
Espero que tudo fique bem para você!!

Oi Felipe! Eu tinha um zine chamado BURN! Don´t Freeze!!, o site onde estão os textos é o http://geocities.yahoo.com.br/burn_dontfreeze_zine/ E agora tenho um chamado Pouco Viável que fica em http://levementeinviavel.multiply.com Ambos são zines feitos no papel, então online ficam só os textos mesmo, não dá pra ver os recortes, desenhos e afins.
Ah, e se interessar, tem umas tentativas minhas de fazer poesia em http://julie-intoyland.livejournal.com hehe, são textos que escrevo quando quero desabafar, sabe?
Espero que goste dos meus escritos amadores!
Abraços.

Sabe quando você começa a ler um texto e nem pisca os olhos, acompanhando tudo com um interesse cada vez mais crescente?

Esta foi uma das melhores resenhas que eu já li sobre The Dark Side of The Moon. E olha que eu já li muitas...de todos os tipos. Mas essa contextualizou um drama ( que seu pai tenha plena recuperação!) com um álbum que eu julgo perfeito e indispensável.

Parabéns!

Uma dica: Leiam, peguem emprestado, comprem, enfim, não deixem de adquirir "The Dark side of the Moon - os bastidores da obra-prima do Pink Floyd", de John Harris, da editora Jorge Zahar. Vocês sabiam que Clare Torry, que participou de "The Great Gig in the Sky" só descobriu por acaso que sua gravação foi incluída no álbum? A partir de 2005 a canção passou a dividir os créditos "Wright-Torry". Repleto de histórias assim...!

o melhor disco de todos os tempos, mesmo. mas acho que ele tem que ser ouvido em vinil, com um fone de ouvido bom, nao em mp3 no computador hahaha

abraços!

concordo com o baldin, mas quem não tem 'cães' (LPs) caça com 'gatos' (MP3)! hahahaha

....foda.
bom, ser redundante não faz mal a ninguém, acredito que não.
mas chegando meio que atrasado, só posso repetir, pois como "usuário" do blog, particularmente, esse post do nosso amigo PipoKo, foi fodA! (com tudo de bom que essa palavra representa.)
mas a "responsa" e o peso da situação, pra abrir a mente, quero dizer, escrever com a lucidez que o disco propõe, que é uma viagem, em vinyl, mp3, m4a...
é viagem mesmo. uma viagem, algo assustador, realmente o lado escuro de um homem...
meu, só um detalhe então, pra não repetir muito.
se houve um 1º sgt. peppers,
e até agora único.
então houve também um 1º Dark side of the Moon,
igualmente incomparável, singular e superá-lo...
bom, na minha ignorância, não vejo possibilidades.
é perfeito.

paz e saúde PipoKo.

sempre!

Véio, adoro tua escrita, já te citei e add no meu Blog e costumo 'visitá-lo' com uma certa frequência em buscas de novidades .Agora o mais difícil vc conseguiu, dizem que qdo vc fala de si atinge a todos e juntando seu 'desabafo' pessoal com esse disco mítico, devo confessar que é um dos melhores posts que vi por aqui! Parabéns.
Terei a sorte neste ano de dirigir a primeira ópera escrita por Roger Waters, chama-se "Ça Ira" e fala sobre a Revolução Francesa", não tem nada a ver com ópera rock, é classica mesmo, mas tem lá seus toques 'floydianos'. Conversei e troquei uns e-mails com Waters para falar sobre a minha concepção que aliás ele aprovou e está entusiasmadíssimo. Já reservou datas na sua agenda, antes de 'Coachella', para acompanhar o início dos ensaios em Manaus que será agora em março (estréia 15/abril no Teatro Amazonas), voltando para a estréia. Embarco na próxima semana e levo apenas um disco de vinil para recebe-lo devidamente autografado! Adivinha qual?
P.S.: Paz e Amor vizinho, e que o seu pai esteja melhor!
Caetano

Excelente post! Parabéns!

Enquanto ao "Dark Side..." é como você mesmo escreveu - o que for dito sobre essa obra tornará clichê, afinal tudo já foi dito ou escrito sobre ela.

Dark Side of the Moon é a obra prima do Rock, sem nenhuma dúvida!

po, eu baixei e tinha um virus '-'

Cara,excelente texto.
Fui procurar um site para baixar um album do Arcade Fire ontem e surgiu esse teu blog ai.Baixei o album Funeral,claro,e dai resolvi dar uma olhada no blog.
Li alguns textos teus e gostei bastante,tu escreves bem pacas e sem cair no lugar comum.O que seria bem fácil se tratando de Pink Floyd(que é minha banda preferida).
Já favoritei o blog e certamente vou continuar lendo teus posts ae.
Parabéns ae!
Abraço

descrever emoções, reflexões, processo de auto-conhecimento é algo muito díficil, justo os sentimentos que essa "divina" sonoridade transmitem, mesmo sem dominar o idioma, foge aos conceitos primários.

Fui procurar um site para baixar um album do Arcade Fire ontem e surgiu esse teu blog [2]

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vei gostei da sua analise do disco...
botei fé...
vc ganhou um seguidor XD